" História, o melhor alimento para quem tem fome de conhecimento" PPDias

domingo, 30 de maio de 2010

Um historiador pela relativização da História

Entrevista com François Dosse
Aos 37 anos de idade um jovem historiador balançou os alicerces de um dos templos sagrados da historiografia francesa fundado há 80 anos, a École des Annales. O ano era 1987, o livro, A História em Migalhas, e o historiador, François Dosse, um dos conferencistas-chave do Panorama do Pensamento Francês Contemporâneo, escolhido a dedo para fechar o Ano da França no Brasil. O evento, resultado de uma parceria entre Globo Universidade, Casa do Saber e Zadig!, foi realizado no Rio de Janeiro, em novembro de 2009. Na ocasião, Dosse questionava a falta de foco político e o deslizamento dos “annalistas” para modismos, mentalidades, imaginários, escapando pela lateral dos fundamentos da Ciência Social e da interação com outras ciências, esmigalhando fatos sem fazer a ligação entre eles. Jacques Le Goff reagiu, segundo Dosse, “como vigia da fortaleza atacada”. Num artigo, Le Goff renegava o “esmigalhamento” de sua “matéria prima”, insinuando que o autor buscava os holofotes da mídia.
Aos 59 anos, Dosse não mudou uma linha de seu pensamento. A École des Annales, sim. Todos reviram suas posições e Dosse segue associado ao inovador Instituto de História do Tempo Presente (IHTP), atraindo não a mídia, mas ar fresco para a função do historiador que o erudito jesuíta Michel de Certeau (1925-1986) comparou à de “um coveiro”. Inovador em tudo, Dosse concedeu esta entrevista exclusiva ao site do Globo Universidade tratando das fronteiras entre História do passado, presente e futuro, da necessidade de testemunhas oculares para a veracidade dos fatos e da importância da memória na confecção da História. Trata também das biografias, tema de seu último livro traduzido para o português. E da omissão da história privada na construção de um personagem.
Seis de seus catorze livros foram publicados no Brasil, os cinco primeiros pela Edusc, O Império do Sentido: A Humanização das Ciências Humanas, A História em Migalhas: dos Annales à Nova História, A História (2003), História e Ciências Sociais (2004), História do Estruturalismo (2007), e, o último, pela Edusp, em 2009, O Desafio Biográfico: Escrever uma Vida.

Globo Universidade – É possível escrever uma História imediata se, como disse Primo Levi, é impossível analisar o presente pela absoluta falta de distanciamento dos fatos?

François Dosse – A importância de uma História imediata surgiu da interligação com o jornalismo, a partir da contribuição de Jean Lecoutre na Nova Enciclopédia da História em 1978. É escrever a História imediata fazendo referências ao passado, acrescentando uma dimensão histórica aos fatos cotidianos.

GU – Os jornalistas fazem história do cotidiano quando utilizam os mesmos instrumentos, fontes e testemunhos?
FD – Exatamente. Foi assim que nasceu o Instituto de História do Tempo Presente, com um Comitê de História criado para estudar a 2ª. Guerra Mundial. A ideia era recuperar arquivos, testemunhos e fatos ocorridos entre 1940 e 1945.

GU – Somente na França, para estudar Vichy e o colaboracionismo francês?

FD – No mundo inteiro, embora durante muito tempo o diretor do IHTP tenha sido Henry Rousso, especialista em Vichy.

sábado, 29 de maio de 2010

Termos históricos: Feudalismo


A queda de Roma e as invasões bárbaras provocaram na Europa a substituição das relações políticas entre o estado e os cidadãos pela vinculação pessoal entre senhores e vassalos.
Entende-se por feudalismo o sistema social, econômico e político que se desenvolveu no território europeu, principalmente entre os séculos IX e XII. Como termo genérico, o conceito de feudalismo se aplica a todas as sociedades nas quais o poder central é reduzido e cuja economia se baseia no trabalho de camponeses submetidos a um regime de servidão. Várias das grandes civilizações do mundo passaram por um período feudal no curso de sua história. Alguns desses feudalismos, como o japonês, têm numerosos pontos de comparação com o feudalismo europeu.
O sistema feudal tem origem em instituições tanto do mundo romano quanto do germânico. De fato, notam-se no Império Romano, desde a crise do século III, traços que conduziriam ao feudalismo. Os ataques bárbaros, as lutas internas e todo o processo de desintegração da ordem antiga e sua transformação numa sociedade predominantemente agrária levaram a uma grave depressão econômica, com contínua depreciação da moeda. As exigências, pelo estado, de recursos para enfrentar enormes despesas resultaram num excesso de impostos. As isenções concedidas aos grandes proprietários e à igreja, após Constantino, aumentaram o peso sobre a massa contribuinte. Um dos resultados dessa situação foi a tendência à fuga dos impostos e muitas pessoas abandonavam o trabalho em busca de outro tipo de vida. Para impedir isso, o estado interferiu na ordem socioeconômica, prendendo coercitiva e hereditariamente as pessoas à profissão, por meio dos collegia e, no caso dos camponeses, do colonato.
Visando aliviar sua situação, indivíduos ou grupos começaram a recorrer ao patrocinium potentiorum, isto é, à proteção dos poderosos, noção familiar ao mundo romano, dada a antiga instituição da clientela. Os camponeses entregavam suas pequenas propriedades a um grande proprietário, em troca de proteção, conhecida como recomendação, e dele recebiam de volta a terra, sob a forma de um precarium; deveriam trabalhá-la para o protetor, ficando presos a ela. Na sociedade germânica, os jovens guerreiros, os comites, associavam-se sob a liderança de um chefe, o princeps, de quem recebiam armas, alimento e uma parte dos despojos dos exércitos inimigos derrotados. A base do comitatus era a fidelidade.
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Às vezes o feudo - palavra que no século X passou a substituir a palavra benefício - se originava da concessão feita por um rei a um nobre ou de um nobre a outro, mediante o cumprimento de certas obrigações; o que concedia a terra era o suserano, o que a recebia com obrigações, o vassalo. Em outras ocasiões, administradores da coroa, os condes, apropriavam-se das atribuições reais e acabavam convertendo-se em donos do território que antes apenas administravam.
A partir do século X combinavam-se, no sistema feudal, a propriedade da terra, a recomendação, o serviço militar e a fidelidade. Com o passar do tempo a Europa foi coberta por uma verdadeira rede de feudos, pois cada suserano tornava-se vassalo de um outro mais forte, sendo então o rei o "suserano dos suseranos". O vassalo podia transferir parte de seu feudo para outrem, desde que obtivesse permissão de seu suserano, e dessa forma tornava-se ele também suserano. O ato pelo qual um homem se colocava sob a proteção de outro era solene e recebia o nome de homenagem (de homem); nele o vassalo se ajoelhava ante o senhor e prestava juramento de fidelidade; e o senhor o investia como vassalo ao entregar-lhe um objeto simbólico, por exemplo uma espada. No feudalismo o vínculo era pessoal, já que unia o suserano e seu vassalo; e de direito real, pois vinculava as terras de um e de outro.
[piramide+social.jpg]A sociedade feudal possuía uma estrutura piramidal. No ápice estavam o rei ou imperador e o papa; mais abaixo os ocupantes das antigas circunscrições administrativas, os duques, condes ou viscondes; depois vinham os barões, ou "senhores castelões"; abaixo na hierarquia apareciam outros nobres, cavaleiros e o clero, isentos do pagamento de taxas; na base, as classes inferiores, compostas por camponeses livres e servos, sobre os quais recaíam todos os impostos.
A posse do feudo era limitada à nobreza, excetuando-se entretanto os sacerdotes, as mulheres e crianças. Houve uma diminuição do poder real, pois, muitas vezes, o vassalo obedecia a seu suserano antes de obedecer ao rei. A realeza era o centro, em torno do qual se agrupavam os feudos. Além dos senhores laicos havia os eclesiásticos; arcebispos, bispos e abades eram não apenas clérigos mas senhores feudais, participantes da vida característica da nobreza. A própria igreja era grandemente feudalizada. Os senhores laicos, em troca da homenagem, investiam bispos e abades em suas funções eclesiásticas e nas vantagens temporais que as acompanhavam. Em troca, os bispos e abades prestavam serviços, inclusive militares. Depois da reforma gregoriana do século XI, os sacerdotes continuaram a ser investidos em seus feudos pela autoridade laica mas a investidura religiosa passou à igreja.
Na França ocorreu o sistema mais desenvolvido. A partir do século XII, entretanto, o feudalismo se viu sob o ataque de novas forças sociais. Entre as causas de sua gradual modificação, até o desaparecimento por volta do fim do século XIV, estão: as cruzadas, uma vez que muitos senhores tiveram de criar exércitos permanentes, o que os levou a se encherem de dívidas; o fortalecimento do poder real; e a centralização administrativa, decorrente dos outros dois fatores.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Termos históricos: Comunismo


"Todos os fiéis, unidos, tinham tudo em comum; vendiam suas propriedades e seus bens e dividiam o preço entre todos, segundo as necessidades de cada um." Essa descrição das primeiras comunidades cristãs, contida nos Atos dos Apóstolos, revela o conceito de comunismo no sentido mais amplo: um regime social no qual vigoram a propriedade comum de todos os bens e a distribuição eqüitativa da riqueza.
De acordo com a formulação de Karl Marx, o comunismo moderno seria a fase superior da evolução histórica da sociedade, altamente organizada, formada por trabalhadores livres e conscientes que teriam a posse coletiva dos meios de produção. O advento dessa sociedade determinaria o desaparecimento do estado. As nações se aproximariam cada vez mais umas das outras e suas fronteiras desapareceriam. A organização social, fundamentada no modo de produção comunista, garantiria o completo desenvolvimento de cada ser humano e a utilização de todo seu talento e capacidade, com maior proveito para si e para a sociedade. O livre desenvolvimento de cada um levaria ao livre desenvolvimento de todos e assim se tornariam finalmente harmônicas as relações entre o indivíduo e a sociedade.
Comunismo primitivo. Baseado nas pesquisas antropológicas de seu tempo, Marx supôs a existência de uma espécie de comunismo nas sociedades primitivas. A sobrevivência da comunidade dependeria do trabalho coletivo e a inviabilidade técnica de produzir excedente eliminaria a possibilidade de propriedade privada. Por não haver riquezas a apropriar, não existiriam também as relações de dominação e a organização social seria muito simples, com base na família. As relações de produção se dariam a partir da propriedade comum dos meios de produção -- terra, instrumentos de trabalho e habitações. A propriedade privada se limitaria às armas, roupas e utensílios domésticos. O trabalho coletivo seria uma necessidade, na paz e na guerra.
No plano teórico, costuma-se citar como antecedentes filosóficos do comunismo as idéias do filósofo grego Platão, especialmente as expostas em A república. Para ele, a restauração do estado dependia da restauração da harmonia, que a democracia não conseguira implantar, por meio da comunidade de bens. Entretanto, a base do estado ideal de Platão é o trabalho escravo e seu sistema, uma idealização do sistema egípcio de castas.
Socialismo utópico. No Renascimento, período em que ressurgiram as idéias platônicas, Thomas More publicou Utopia, em que se encontram os primeiros elementos do socialismo utópico. Até meados do século XIX sucederam-se os socialistas utópicos e foram tentadas várias experiências românticas de sociedades comunais. Entre os principais utópicos destacam-se Jacob Andreae, Francis Bacon, Robert Owen, Saint-Simon e Charles Fourier. Os partidários das teorias de Owen organizaram núcleos comunistas nos Estados Unidos e Inglaterra.
Comunismo marxista. A filosofia marxista nasceu na Europa na década de 1840, época em que estava consolidado o capitalismo inglês e a industrialização agravara as desigualdades sociais. Para o marxismo, no sistema capitalista impera a ditadura da burguesia, a qual, na etapa do socialismo seria substituída pela ditadura do proletariado. A propriedade social dos meios de produção no socialismo levaria à extinção gradual das classes e à evolução para o comunismo. A filosofia marxista, ou materialismo dialético, aplicada à história constitui o materialismo histórico, segundo o qual a história progride pela luta de classes.
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O Manifesto comunista, de 1848, escrito por Marx e Engels, é o primeiro documento do comunismo científico, expressão usada pelos autores para diferenciá-lo do comunismo utópico, afirmando que o socialismo decorre do capitalismo de maneira necessária, historicamente determinada, da mesma forma como o capitalismo sucedeu ao modo de produção feudal.
Fases do comunismo. Na Crítica ao programa de Gotha (1875), Marx afirma que entre o fim da sociedade capitalista e o advento da sociedade comunista transcorreria um longo período de transição, que ele denominou socialismo. Estabelecidas as condições políticas (ditadura do proletariado) e econômicas (socialização dos meios de produção), sobreviveriam ainda na sociedade socialista elementos fundamentais da velha sociedade: relações econômicas, sociais, jurídicas, éticas etc. Permaneceria a oposição entre trabalho intelectual e manual e o grau insuficiente de desenvolvimento das forças produtivas determinaria a distribuição dos bens e serviços segundo a quantidade e qualidade do trabalho de cada um.
Cumprido o período de transição socialista, seria instaurada a sociedade comunista, com a posse coletiva da totalidade dos meios de produção, desaparecimento definitivo das classes, das diferenças entre a cidade e o campo e entre trabalho intelectual e manual. O estado, instrumento de dominação de uma classe sobre outras, desapareceria e, nas palavras de Marx, o governo dos homens seria substituído pela administração das coisas. Uma vez superada a ordem jurídica burguesa, a sociedade poderia "escrever em suas bandeiras: de cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo sua necessidade".
Movimento comunista. O sistema filosófico marxista estabelece uma ligação indissolúvel entre teoria e prática, e Marx e Engels, coerentes com esse princípio, trataram de ligar-se à classe operária. Para isso viajaram a Bruxelas, Paris e Londres, onde entraram em contato com as organizações proletárias e democráticas a fim de convencer seus líderes do papel revolucionário da classe operária. Em 1847 seus partidários fundaram a Liga dos Comunistas, cujo programa, redigido por Marx, levou o título de Manifesto comunista e foi publicado em Londres no ano seguinte. O próprio Marx propôs a dissolução da Liga, cinco anos após sua criação, devido às perseguições da polícia prussiana e ao processo dos comunistas na cidade de Colônia, após o fracasso da revolução de 1848 na Alemanha.
Em 1864, Marx participou da criação da Associação Internacional dos Trabalhadores, que ficou conhecida como I Internacional. Redigiu seus estatutos e procurou orientá-la para o socialismo científico. As adesões se multiplicaram até 1870, quando o anarquista russo Mikhail Bakunin começou a ter grande influência sobre o proletariado, criticando o comunismo por sua "mania de organização e disciplina". A luta entre as duas tendências se agravou com o fracasso da Comuna de Paris, em 1871. Em 1876, decide-se extinguir a I Internacional.
Socialistas de 23 países reunidos em Paris para comemorar o centenário da queda da Bastilha, em 1889, lançaram as bases da II Internacional, cuja fundação se consumou em 1891, em Bruxelas, sob o nome de Internacional Operária, que congregava representantes de várias tendências. No congresso de 1893 decidiu-se expulsar os anarquistas. As divergências internas exacerbaram-se com o fracasso da revolução de 1905 na Rússia, mas, apesar disso, em 1912 a II Internacional contava com 12 milhões de sindicalizados e 7,5 milhões de cooperados. A iminência de uma guerra mundial levou os parlamentares social-democratas alemães, franceses e ingleses a apoiar os governos nacionais, numa posição incompatível com o internacionalismo proletário. A II Internacional foi então abandonada pelos marxistas.
Leninismo. O marxista russo Vladimir Ilitch Ulianov, conhecido pelo pseudônimo de Lenin, publicou em 1902 o livro intitulado Chto dielat? (Que fazer?), no qual expôs suas teses sobre a organização do partido revolucionário. No II Congresso do Partido Social Democrata Russo, realizado em 1903, operou-se a cisão entre bolcheviques, fração majoritária, e mencheviques, fração moderada minoritária do partido. Em outubro de 1917, eclodiu na Rússia a revolução bolchevique, inspirada nas teses leninistas sobre a luta armada pelo poder.
A III Internacional foi fundada em Moscou, em 1919, e em seu II Congresso, realizado no ano seguinte, tomou o nome de Internacional Comunista e estabeleceu programa e direção precisos. Lenin enunciou então as 21 condições de admissão dos partidos à organização. Os que foram aceitos adotaram explicitamente a denominação de partido comunista e assumiram como um de seus principais objetivos a defesa da "pátria do socialismo". O Partido Operário Social-Democrata da Rússia, encabeçado por Lenin, transformou-se no Partido Comunista de Todas as Rússias, nome mudado em 1925 para Partido Comunista da União (ao criar-se a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) e, finalmente, em 1952, para Partido Comunista da União Soviética (PCUS). Desde a vitória da revolução, em 1917, a história desse partido confundiu-se com a do próprio país.
Stalinismo. A morte de Lenin, em 1924, abriu o problema sucessório. Assumiu o governo a troika (triunvirato), formada por Lev Kamenev, Grigori Zinoviev e Josef Stalin, este último secretário-geral do partido desde 1922 e em decidida marcha para o poder total. Defensor da teoria do "socialismo em um só país", entrou em choque com a tese da "revolução permanente", de Leon Trotski. Em 1925, Stalin já era o dirigente único da União Soviética e líder supremo do movimento comunista internacional, posições referendadas pela III Internacional e pelo XIV Congresso do Partido Comunista. Em 1928, o primeiro plano qüinqüenal de Stalin pôs fim à nova política econômica (NEP) de Lenin, em vigor desde 1920, que protegia o direito à pequena propriedade. Inicia-se o programa de industrialização rápida e socialização forçada para assegurar a defesa da União Soviética contra a ameaça capitalista.
http://www.diaadia.pr.gov.br/tvpendrive/arquivos/Image/conteudos/imagens/2Filosofia/1stalin_mao_tse_tung.jpgStalin soube tirar partido da onda de "patriotismo soviético" para efetivar profundas modificações econômicas no país e desencadear a eliminação em massa de dissidentes. No plano internacional, rompendo o pacto de não-agressão que assinara com a Alemanha hitlerista, participou ativamente da segunda guerra mundial contra o nazi-fascismo. Ao final da guerra, com a intervenção do Exército Vermelho, os soviéticos impuseram governos comunistas na Hungria, Polônia, Romênia, Bulgária e Tchecoslováquia. Na Iugoslávia, Josip Broz Tito, herói da resistência antinazista, instaurou um governo pró-soviético. Todos esses países, mais líderes comunistas da França e Itália, uniram-se à União Soviética para criar, em 1947, o Bureau de Informação Comunista (Cominform), do qual a Iugoslávia foi expulsa no ano seguinte pela posição independente de Tito. Em 1949, os comunistas chineses liderados por Mao Zedong (Mao Tsé-tung) criaram a República Popular da China.
Com a morte de Stalin, em 1953, Nikita Khrutchev assumiu o controle do partido e denunciou os erros do antecessor. Em 1956, o XX Congresso do PCUS adotou a política de coexistência pacífica com os governos ocidentais. Embora abrandado o terror interno, as revoltas anticomunistas na Hungria e Tchecoslováquia foram reprimidas com rigor, o que manifestou as profundas divergências no interior do governo soviético. Em 1964, Khrutchev foi afastado do poder e teve início a direção colegiada do partido, com Leonid Brejnev.
Aprofundaram-se as divergências ideológicas com a China, que passou a acusar o PCUS de abandono da luta revolucionária e adoção de uma política reformista, como concessão à coexistência pacífica. Os governos dos países capitalistas fecharam o cerco contra a expansão comunista, criaram uma frente contra a "exportação" do socialismo e, na América Latina, apoiaram golpes de estado contra governos democráticos na Argentina, Brasil, Uruguai e, mais tarde, no Chile. As tensões se agravaram com o alinhamento de Cuba junto ao bloco comunista depois da revolução cubana de 1959.
Desintegração do comunismo. A invasão do Afeganistão em 1979, última operação intervencionista da União Soviética, provocou um imenso desgaste militar e político que culminou com a retirada, dez anos mais tarde, por força do clamor internacional. Já em 1985, ao assumir o poder, Mikhail Gorbatchev deixara clara sua intenção de mudança: a perestroika (reestruturação administrativa de empresas e órgãos do governo) e a glasnost (transparência das atividades governamentais, baseada na liberdade de informação) foram as duas linhas de força no desmonte da estrutura de poder montada pelo partido, que levara ao surgimento da nomenklatura (classe privilegiada de burocratas), corrupção desmedida e atraso tecnológico. O fim do confronto com o Ocidente e a democratização permitiram a independência dos países que formavam a "cortina de ferro" (expressão criada por Winston Churchill para designar o conjunto de países formado por Tchecoslováquia, Hungria, Polônia e Bulgária), a queda de ditaduras tão corruptas quanto sangrentas, como as da Romênia e Albânia, e a reunificação da Alemanha.
As repúblicas que constituíam a União Soviética se separaram e fundaram a Comunidade de Estados Independentes (CEI), preservando sua autonomia. A secessão mergulhou a Iugoslávia numa luta sangrenta entre nacionalidades. O Iêmen do Sul e o do Norte se reunificaram. Em Angola, Moçambique e Etiópia, os governos socialistas foram substituídos ou mudaram de orientação. Em todo o Ocidente, ocorreu uma radical transformação dos partidos comunistas, principalmente os de maior representatividade, como o italiano, o francês e o espanhol. Ao iniciar-se a última década do século XX, apenas a China, o Vietnam e Cuba mantinham governos declaradamente comunistas. A ideologia marxista, em todo o mundo, sofreu uma queda drástica de popularidade.
Comunismo no Brasil. Até a fundação do Partido Comunista do Brasil (PCB), em 1922, a ideologia predominante no movimento operário brasileiro era o anarco-sindicalismo. O Manifesto comunista somente apareceu em livro no Brasil em 1924, ou seja, 76 anos após sua primeira edição na Europa. Três meses depois de sua fundação, o partido foi posto na ilegalidade e assim permaneceu até 1985, com breves períodos em que pôde atuar livremente. Em 1930, Luís Carlos Prestes, que se notabilizara por liderar a oposição ao governo Artur Bernardes, na famosa Coluna Prestes, aderiu ao comunismo. A Aliança Nacional Libertadora, criada pelo PCB no início de 1935, procurava pôr em prática nas condições brasileiras a tática das frentes únicas e frentes populares, preconizadas então pelo comunismo internacional. A ela aderiram tenentistas, militares e civis.
Como resultado da combinação do tenentismo com o comunismo, eclodiu em 1935 um fracassado levante militar, a chamada intentona comunista, no Rio Grande do Norte, Recife e, posteriormente, no Rio de Janeiro. Com a redemocratização do país, em 1945, o PCB viveu seu maior período de legalidade, sob a liderança de Prestes, que celebrou uma aliança com Getúlio Vargas. Defendiam então os ideólogos do partido a tese da "burguesia progressista", de caráter nacionalista. O PCB conseguiu eleger um senador e 22 deputados para a Constituinte de 1946 e passou a editar um jornal, a Tribuna Popular. Mas já no ano seguinte, o Tribunal Superior Eleitoral anulou o registro do partido e o Congresso cassou os mandatos de seus deputados. Dessa época até 1960, os comunistas brasileiros viveram na ilegalidade e fiéis à linha ditada por Moscou.
Em 1957, insatisfeito com a obediência cega à orientação soviética, um grupo liderado por Agildo Barata deixou o partido. Em 1962, já com o nome de Partido Comunista Brasileiro, sofreu uma cisão liderada por João Amazonas e Maurício Grabois, que fundaram o Partido Comunista do Brasil (PC do B). Em 1967, durante o regime militar, alguns integrantes foram expulsos por defender a luta armada contra a ditadura. Carlos Marighela fundou então a Aliança Libertadora Nacional (ALN) e Apolônio de Carvalho e Jacob Gorender, o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), que se empenharam na organização de guerrilhas urbanas e rurais, logo desbaratadas pela repressão.
Em 1980 Prestes deixou o partido, juntamente com Gregório Bezerra. Em 1985, com a redemocratização do país, todos os partidos voltaram à legalidade, mas a derrocada do comunismo na União Soviética e na Europa oriental, a par do crescimento do Partido dos Trabalhadores (PT) -- de ideário esquerdista e bases sindicais não comprometidas diretamente com as antigas lideranças comunistas -- acarretaram um crescente desprestígio para a ideologia marxista. O PCB transformou-se, em 1992, no Partido Popular Socialista, liderado por Roberto Freire. As demais legendas perderam-se num amontoado de siglas sem representatividade, que viviam na periferia dos grandes partidos de centro-esquerda, como o PT e o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB).

terça-feira, 25 de maio de 2010

Aprenda brincando

Aprenda um pouco da história do Brasil Republicano com este jogo do site Livro Clip sobre os presidentes do Brasil, aprenda assim sobre o desenvolvimento político e econômico do Brasil e dos vários movimentos sociais rurais e urbanos que se destacaram na República Velha.

sábado, 22 de maio de 2010

Nicolau Copérnico recebe nova sepultura 467 anos após sua morte

Astrônomo foi novamente sepultado na catedral de Frombork, na Polônia.
Cientista foi divisor de águas ao mostrar que Terra gira em torno do Sol.

Após 467 anos de sua morte, o cientista polonês Nicolau Copérnico foi enterrado novamente neste sábado na catedral de Frombork (Polônia), onde estava sepultado até que, há quatro anos, seus restos foram exumados para serem submetidos a uma análise de DNA.

Copérnico (1473-1543) descansará sob o maior altar do templo, em um sepulcro de rocha preta de mais de duas toneladas, com uma lápide de três metros de altura que lembrará uma das figuras fundamentais da astronomia moderna.

Sepultamento do astrônomo Nicolau Copérnico ocorreu neste sábado, na Polônia.Sepultamento do astrônomo Nicolau Copérnico ocorreu neste sábado, na Polônia. (Foto: Jerzy Mytka/AP)

O enterro foi oficiado pelo núncio do papa na Polônia, Jozef Kowalczyk, e o arcebispo de Província de Lublin, Jozef Zycinski, em cerimônia na qual a Igreja Católica se despediu com solenidade do cientista que em seu tempo foi considerado um herege por suas ideias revolucionárias.

Após a exumação, o túmulo provisório de Copérnico ficou no castelo de Olsztyn, onde o cientista viveu parte de sua vida, e posteriormente na catedral da mesma cidade.

O périplo do astrônomo começou em 2005. Arqueólogos poloneses encontraram seus restos mortais em um pequeno túmulo sem nome na catedral de Frombork, no litoral polonês do Mar Báltico.

Diante de dúvidas de que os restos eram de Copérnico, os ossos foram exumados para submetê-los a uma análise de DNA, que confirmou que pertencerem ao polonês.

Posteriormente, uma equipe de cientistas suecos apresentou a reconstrução facial do crânio que coincidiu com os retratos de Copérnico na Polônia, um homem com nariz aquilino e olhos fundos.

O astrônomo marcou o estudo da astronomia com sua obra "De Revolutionibus Orbium Coelestium" ("Das revolucões das esferas celestes").

Nesse texto, baseando em cálculos matemáticos e astronômicos, Copérnico dota de base científica uma antiga teoria heliocêntrica grega, segundo a qual é a Terra gira ao redor do Sol e não o contrário, como se acreditava até então.

Fonte: G1

Mal por natureza!?


Freud explica

Não é raro ouvimos a frase acima, pois as idéias do médico Sigmund Freud (1856-1939), pai da psicanálise, se popularizaram de tal forma que conceitos como a influência co inconsciente sobre o consciente, a sexualidade como base das neuroses, repressão e transferência já se incorporaram à cultura ocidental. Influenciado pela Primeira Guerra Mundial, Freud lança o livro Mal-estar na civilização, no qual explicita uma visão pessimista sobre a natureza do homem: além de ser guiada por instintos (e não pela razão), a essência humana seria má e agressiva por natureza. Esses instintos só seriam disciplinados pela civilização e seus métodos de controle (família, escola, Igreja e polícia). Ainda assim, os instintos humanos seriam irresistíveis e a Grande Guerra, a maior prova de nossa perversidade. Na Europa pós-guerra, o clima de descrença na ciência e no progresso humano criou a idéia de que o mundo jamais seria o mesmo novamente

sexta-feira, 21 de maio de 2010

As "Pragas do Egito"

por Danilo Cezar Cabral

Não há uma explicação que comprove totalmente as dez pragas relatadas naBíblia com base em evidências históricas. Mas a seqüência trágica formada por sangue no Nilo, sapos, piolhos, moscas, morte do gado, chagas, pedras,gafanhotos, céu escuro e a morte dos primogênitos é objeto de estudo – e de polêmica – entre os cientistas. Há duas correntes teóricas principais. Uma delas, que credita as pragas a fenômenos naturais, é liderada pelo físico inglês Colin Humphreys, autor do livro Os Milagres do Êxodo. A outra coloca a erupção do vulcão na ilha de Santorini como ponto de partida. Ela é retratada no documentário O Êxodo Decodificado, produzido por James Cameron.


DUELO TEÓRICO

Compare as explicações científicas para as pragas de acordo com as duas principais correntes

PRAGA: SANGUE NO NILO

TEORIA “NATURAL”: A primeira praga é a transformação das águas do rio Nilo em sangue. O tom vermelho da água seria fruto da proliferação de algas vermelhas tóxicas ou de uma chuva que levou rochas dessa cor ao rio

TEORIA VULCÂNICA: O vulcão na ilha Santorini, a 700 km dali, entrou em erupção, provocou terromotos e fissuras no fundo do rio. Das fendas saiu um gás que se misturou ao ferro do rio, criando ferrugem, que coloriu a água.

PRAGA: PROLIFERAÇÃO DAS RÃS

TEORIA “NATURAL”: A segunda praga, a multiplicação das rãs, seria resultado da anterior: as toxinas das algas fariam com que os saposdeixassem o rio e invadissem as regiões ao redor

TEORIA VULCÂNICA: O gás liberado pelas fendas deixa a água sem oxigênio, fazendo com que os sapos fujam para a superfície. Muitos dos bichos começaram a invadir as áreas habitadas pelos egípcios

PRAGA: PIOLHOS AOS MONTES

TEORIA “NATURAL”: Temporal seguido de clima quente e seco é igual a multiplicação de ovos de piolho, segundo essa corrente. O inseto era comum noEgito antigo – muitos egípcios raspavam a cabeça para evitá-lo

TEORIA VULCÂNICA: A infestação de piolhos ocorre devido à falta de água limpa. Sem ela, a higiene fica comprometida, formando um cenário propício para a reprodução de insetos, como os piolhos

PRAGA: ENXAME DE MOSCAS

TEORIA “NATURAL”: O físico Colin Humphreys diz que as moscas se multiplicam por causa da morte dos sapos, seus predadores naturais. Roger Wotton, biólogo inglês, diz que o mosquito forma enxames densos

TEORIA VULCÂNICA: As moscas apareceriam por duas razões: falta d’água, que provoca falta de higiene, atraindo os insetos. A segunda é a morte de animais do ecossistema do Nilo – a carniça chama mais moscas

PRAGA: PESTE NOS ANIMAIS

TEORIA “NATURAL”: Para Humphreys, um dos culpados é a mosca-de-estábulo, que carrega vírus fatais para vacas e cavalos. De acordo com Wotton, a grande quantidade de picadas de insetos provocaria a peste

TEORIA VULCÂNICA: A cadeia de eventos iniciada pela falta de água gera a proliferação de insetos, que picam os animais rurais, provocando doenças. Essa parte da explicação do documentário é muito criticada

PRAGA: CHAGAS NOS HOMENS

TEORIA “NATURAL”: De acordo com esta teoria, as úlceras e chagas em homens e nos animais seriam conseqüência da multiplicação de insetos, como o mosquito Culicoides canithorax

TEORIA VULCÂNICA: Em 1986, um lago em Camarões ficou vermelho por causa de vazamentos de gás, e os moradores ganharam bolhas por causa dos gases. O mesmo poderia ter acontecido no Nilo

PRAGA: CHUVA DE PEDRAS

TEORIA “NATURAL”: As saraivas de que fala a Bíblia seriam chuvas de granizo muito maiores que o normal, misturadas a relâmpagos. Apesar de raras, as chuvas de pedra e granizo acontecem durante tempestades

TEORIA VULCÂNICA: Um papiro citado no filme relata saraivas semelhantes às da Bíblia. Há outra explicação: as cinzas do vulcão, em contato com a atmosfera, provocam uma chuva de fogo e gelo

PRAGA: NUVEM DE GAFANHOTOS

TEORIA “NATURAL”: Com tantas alterações ambientais, o comportamento dosgafanhotos poderia mudar, provocando as nuvens. O solo úmido da chuva de granizo também atrairia gafanhotos

TEORIA VULCÂNICA: A erupção do Santorini teria desequilibrado o clima, aumentando a temperatura e forçando os bichos a migrar. Além disso, enxames de gafanhotos são comuns em partes da África

PRAGA: TREVAS NO CÉU

TEORIA “NATURAL”: A escuridão no céu do Egito poderia ser provocada por tempestades de areia chamadas khamsin, por um eclipse solar total ou até mesmo pelos densos enxames de gafanhotos

TEORIA VULCÂNICA: Lembram do vulcão? A escuridão teria sido causada pelas nuvens de cinza que ele lançou. A força da erupção do Santorini faria com que a nuvem viajasse até o Egito, tapando o Sol e escurecendo o céu

PRAGA: MORTE DOS PRIMOGÊNITOS

TEORIA “NATURAL”: A última praga é a morte dos primogênitos. Tradicionalmente, os filhos mais velhos comem antes que os demais irmãos. Por isso, morreram antes com a comida contaminada pela falta de higiene

TEORIA VULCÂNICA: Os filhos mais velhos dormem mais próximos ao chão, segundo o documentário. Entre os gases que vazaram, estaria o dióxido de carbono, que se desloca junto ao solo, matando quem o inala.

Por que nos museus é proibido fotografar com flashs?

Isso quando eles permitem fotografar alguma coisa, não é? O que acontece é que essa luz disparada pelas câmeras é tão intensa que acaba adulterando a própria cor das pinturas. Além de todas as cores perceptíveis pelo olho humano e dos raios infravermelhos, a luz branca dos flashes contém os invisíveis e poderosos raios ultravioleta. Os fótons (partículas de luz) que os compõem carregam uma quantidade de energia muito maior que a dos outros raios - a ponto de reagirem com os elétrons das tintas do quadro. Essa reação romperia algumas das ligações químicas entre as moléculas que formam o pigmento - o que, por sua vez, modificaria de maneira imprevisível as cores da pintura. Qualquer luz branca - como a do Sol ou a das lâmpadas fluorescentes - é capaz disso, só que essa capacidade de interferir na pigmentação aumenta conforme a intensidade da luz.

A dos flashes é tão forte que tem que ser proibida em nome da preservação de patrimônios artísticos valiosíssimos. Sem ela, as fotos que os visitantes levam para casa podem não ficar lá essas coisas, mas os Van Goghs e os Picassos agradecem.


Fonte: www.mundoestranho.abril.com.br

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A origem da desigualdade


"O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer "isto é meu" e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes "Defendei-vos de ouvir esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra pertence a ninguém!" (Rousseau, Discurso sobre a desigualdade)


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quarta-feira, 19 de maio de 2010

Cachaça: uma pro santo e outra para o professor

Cachaça, Tributos e Salários dos professores no Brasil colonial.

Ainda que desde a Antiguidade Clássica a educação estivesse presente nos interesses de filósofos, como Platão ou Marco Túlio Cícero, ou então, vez por outra, nas ações dos governantes e de instituições religiosas, isso nunca significou uma regra a ser seguida. Apenas recentemente, em termos históricos, educar a sociedade tornou-se uma prática respeitada. O curioso é que a constatação sobre isso surgiu não propriamente de educadores, filósofos ou governantes, mas sim de um sujeito cujos interesses estavam voltados para a economia. Seu nome: Thomas Robert Malthus. No livro intitulado Ensaios sobre a População, publicado em 1798, Malthus afirma que o maior problema dos governos era a pobreza vivida pela maioria da sociedade, resultado de um processo crônico enfrentado por todos os povos. Segundo o autor, as populações cresciam em progressão geométrica (2, 4, 8,16,32,64...) ao longo do tempo. Já as condições materiais - como alimentação, moradia, saúde entre outros multiplicavam-se aritmeticamente (2,3,4,5,6,7,8...).

Assim, em todos os momentos da história humana, a pobreza e a miséria existiriam. A única saída, afirmava Malthus, era educar a sociedade - principalmente os mais pobres - para que as pessoas entendessem a origem de seus males e não culpassem os governantes. A idéia de Malthus não chegava a ser inédita. Esse raciocínio era muito usado, no século XVII, para evitar as revoltas populares que começavam a emergir na Europa e na América. Por exemplo, alguns governos, sob a influência do pensamento Iluminista, adotaram para si a responsabilidade da educação.

Dinheiro vindo da cachaça.

Um dos países que instituíram a educação pública foi Portugal, e isso pouco tempo antes da publicação da obra malthusiana. A iniciativa, porém, não visava propriamente à erudição do povo. Quando o rei Dom José I assumiu o trono de Portugal, por volta de 1752, trouxe o Marquês de Pombal para compor o seu Conselho de Estado.

Pombal, bastante influenciado pelas propostas dos pensadores iluministas e incluído posteriormente no rol dos chamados déspotas esclarecidos - governantes ou assessores de governantes que, apesar de se apresentarem como seguidores do modelo Absolutista, adotavam certas práticas liberais defendidas pelo Iluminismo -, procurou, entre outras coisas, adotar medidas que minimizassem a influência da Igreja Católica nas orientações governamentais portuguesas. Uma dessas ações foi a expulsão da Companhia de Jesus do Brasil, na década de 1750. Os jesuítas, entretanto, eram responsáveis por mais de 80% dos poucos colégios no território brasileiro. Sua expulsão criou um enorme problema para a Metrópole, pois não se sabia quem iria assumir o espaço deixado pela Companhia de Jesus.

A solução foi encontrada nos anos de 1762 e 1763. O governo português ficaria responsável pela educação da população no território ultramarino, por meio da criação de escolas públicas. Se, por um lado, a iniciativa resolvia parte do problema, por outro fazia surgir um imbróglio: para educar, professores deveriam ser contratados, e isso implicaria pagamento de salários. Mas de onde sairia o dinheiro? Nesse período ainda não existia de forma completa a idéia de administração pública ou planejamento administrativo; esses temas foram desenvolvidos nos séculos XIX e XX.

A saída foi a criação de um novo tributo para sustentar essa atividade. Porém, mais uma encrenca tomava vulto: o que poderia ser tributado? Os escravos já eram objeto de tributação; ouro, diamante, açúcar, charque, passagem dos rios também, além de tantos outros que a lembrança pudesse alcançar.

Sugeriu-se, então, tributar um artigo comum em todo o território brasileiro e que, portanto, geraria renda suficiente para pagar o salário dos professores: a aguardente de cana-de-açúcar, conhecida como cachaça. Conforme as leis vindas da Metrópole, para cada tonel de 30 litros de cachaça seriam cobrados mil e quinhentos réis (1$500) a título de "subsídio literário" ..:. nome dado a esse novo tributo - e o dinheiro deveria ser revertido ao pagamento dos professores.

A mesma ordem determinou as matérias a serem lecionadas nos cursos: gramática, retórica, álgebra, geometria e história natural; o salário de cada mestre deveria ser de sessenta e dois mil réis (62$000) e as escolas deveriam estar localizadas nas vilas ou aldeias que concentrassem maior número de habitantes.

Por fim, a cobrança desse tributo ficaria a cargo do "contratador das entradas". Esse profissional era responsável pela cobrança dos tributos referentes a todos os artigos secos e molhados (por exemplo, pólvora e gêneros alimentícios) que entravam numa capitania, sendo o dinheiro arrecadado e posteriormente repassado à Real Fazenda.

Algumas coisas podem ser pensadas a partir daí. A primeira delas foi a opção por esse produto. Ao escolher a cachaça como item a ser tributado, o governo português criou uma situação em que todos – ou quase todos – os habitantes do Brasil contribuiriam, de maneira forçada ou não, para a educação pública. Em outras palavras, constituía-se uma situação em que toda a população favorecia a coisa pública, isso porque o vinho era uma artigo muito caro, mesmo para as elites coloniais, e a aguardente tomava seu lugar em larga escala.

A segunda diz respeito aos salários dos professores. Sessenta e dois mil réis era o soldo pago a um alferes da tropa regular, e alferes era um posto similar ao do tenente – não podemos esquecer o mais famoso alferes da nossa história, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Dessa maneira, se a comparação ainda fosse válida para os dias de hoje, um professor de ensino fundamental estaria ganhando em torno de R$ 2 mil, o que não seria mau negócio.

Por fim, ainda que seja quase uma piada, surge uma curiosidade. Se o salário dos professores era pago por meio da tributação da cachaça, pode-se concluir que, quando maior fosse o consumo desse produto, mais dinheiro existiria para a educação pública. Assim, pergunta-se: será que aumentou o número de bebedores no Brasil colonial por causa da boa educação do povo? Infelizmente, não nos é possível responder.

De qualquer modo, o “subsídio literário”, assim como todos os outros impostos, foi cobrado no território até 1831, quando teve início a discussão que desaguou no Ato Adicional de 1834 – grande reforma político-administrativa do Período Regencial. A partir de então, o dinheiro usado na educação passou a sair do orçamento governamental.

Retornando ao tema principal, pode-se perguntar se as matérias que foram escolhidas para as escolas eram ideais; pode-se perguntar também, caso seja possível calcular, sobre o número de alunos que frequentavam essas escolas no período e a população aproximada do Brasil dos setecentos; pode-se, enfim, discutir se a forma encontrada depois foi a ideal. Mas isso...isso...bom, isso já é uma outra história. Fica, portanto, para uma próxima vez.

Autor: Antônio Marcelo Jackson F. da Silva – Bacharel em História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Mestre e Doutor em Ciência Política pelo Instituo Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IURPERJ). Professor da Faculdade de Ciências Econômicas de Valença-RJ.

Homossexualidade na Igreja: uma tradição medieval

Documentos do século XIV mostram que relações sexuais entre religiosos maduros e jovens aprendizes é muito mais antiga que o atual escândalo enfrentado pelo Vaticano

Apesar de perseguido, o homossexualismo esteve muito presente na Idade Média. Segundo John Boswell, autor de Christianisme, tolérance sociale et homosexualité(Cristianismo, tolerância social e homossexualismo), a prática teve uma importância no período que só seria igualada em nossos dias. Boswell atribui a disseminação do homossexualismo à renascença carolíngia, ao desenvolvimento das cidades e à cultura eclesiástica.

Na Idade Média, o meio monástico era um terreno propício para a sodomia: a Regra de São Bento previa que os monges deviam dormir cada um em uma cama, de preferência em um mesmo local, com sacerdotes mais antigos que cuidariam deles. Os regulamentos de Cluny proibiam que os noviços ficassem sozinhos ou na companhia de um só professor. Se um dentre eles, à noite, tivesse de sair para satisfazer suas necessidades, tinha de estar acompanhado por um mestre e por outro jovem munido de lanterna.

Foi em meio a esse ambiente que Arnaud de Verniolle, subdiácono fugido das prisões da ordem dos franciscanos no século XIV, acusado de heresia e de sodomia, afirmou ter sido iniciado nas práticas homossexuais por um colega mais velho, que se tornara padre. Aos 12 anos, seu pai o colocou em uma escola de Pamiers comandada pelo mestre Pons de Massabuc para aprender gramática. Arnaud dividia o quarto com seu professor e outros jovens. “Quando eu morava naquele quarto, fiquei dormindo na mesma cama, durante cerca de seis semanas, com Arnaud Auréol. Depois de duas ou três noites que passamos juntos, ele, pensando que eu dormia, me tomou nos braços e me prendeu entre suas coxas, colocando seu membro viril entre as minhas e, como se estivesse com uma mulher, se mexeu e ejaculou em minhas pernas. Quase sempre, a cada noite que dormíamos juntos, ele recomeçava esse pecado. Como eu, naquele tempo, era ainda uma criança, apesar de não gostar do ato, não ousava contá-lo a ninguém, por pudor.”

Arnaud declarou que, anos depois, sentia um mal físico quando se abstinha por mais de oito ou quinze dias de ter relações com um homem ou uma mulher. Tinha, então, experiências heterossexuais, mas uma aventura o fez renunciar às mulheres. Segundo o frei Pierre Record, encarcerado na mesma cela que Arnaud por alguns dias, o subdiácono lhe contou que “na época em que se queimavam os leprosos, ele morava em Toulouse, tendo relações com uma mulher da vida; depois de cometer esse pecado, seu rosto inchou, o que o fez acreditar que estivesse com lepra. Por isso, jurou que a partir de então nunca mais teria relações carnais com mulheres.”

Leia o texto completo: História Viva

A hora e a vez da História



Enquanto os brasileiros redescobrem o encanto da História, muitas escolas tentam negar a necessidade e a importância desse conhecimento.
por Jaime Pinsky
A História é a bola da vez. As melhores livrarias européias destinam algumas das melhores estantes e balcões a livros de história. Romances históricos estão entre os best-sellers no mundo todo. Revistas como História Viva têm cada vez mais sucesso. Até esportistas nos Jogos Olímpicos deixaram de "bater recordes" e passaram a "fazer história" na inadequada, mas sintomática expressão dos locutores esportivos.

O historiador está sendo cada vez mais valorizado, a informática e a internet facilitaram imensamente a parte mecânica do trabalho de investigação, profissionais são chamados para explicar o mundo na mídia. Já há historiadores trabalhando com planejamento urbano, com projetos turísticos, como consultores editoriais e empresariais. Ao mesmo tempo que isso ocorre, e de maneira contraditória, há um movimento em escolas, principalmente no ensino médio, que, no limite, tende a substituir o ensino de História por uma outra disciplina que eu chamaria de "realidade mundial".

Muitos professores têm abandonado tudo que aconteceu antes do século XIX, alegando não ser possível "dar tudo", daí terem de se concentrar no passado mais próximo, em detrimento do remoto. Claro que uma parte da responsabilidade disso cabe aos diretores (e, talvez, à própria sociedade), que a partir de um altamente discutível pragmatismo neoliberal diminuíram drasticamente o número de aulas de História. Eu não pouparia, contudo, muitos colegas que, em nome de um suposto "ensino crítico", acabam alienando seus próprios alunos ao não lhes dar oportunidade de adquirir uma visão mais abrangente de História.

Assim, nada de processo civilizatório, nada de monoteísmo ético dos hebreus (base do cristianismo), nada de filósofos gregos (base do pensamento ocidental), nada de direito romano (base do nosso), nada de Europa medieval, de Renascimento, de Mercantilismo e descobrimentos, nada de Bach e Mozart, de Dante e Camões. Eles acabam abrindo mão de conhecimentos fundamentais em troca de informações de importância duvidosa. E, mais grave, desistem de buscar uma aproximação dos alunos com o patrimônio cultural da humanidade. E qual é o papel do professor senão estabelecer uma articulação entre esse patrimônio e o universo cultural do aluno?
Ora, a presença do homem civilizado neste planeta tem poucos milhares de anos e tem causado terríveis males: destruímos sem dó a natureza, submetemos os mais fracos, matamos por atacado e a varejo, deixamos um terço da população mundial com fome, queimamos índios e por aí afora, mas não é só isso que fazemos.

Escrevemos poesia sublime, teatro envolvente e romances maravilhosos. Criamos deuses e categorias de pensamento complexos para compreender o que nos cerca. O professor de História não pode ficar preso apenas a modos de produção e de opressão (embora isso seja fundamental), mas pode e deve mostrar que tivemos o talento, graças à cultura que produzimos, de nos vestir melhor que os ursos, de construir casas melhores que o joão-de-barro, de combater melhor que o tigre, embora cada um de nós, seres humanos, tenha vindo ao mundo desprovido de pêlos espessos, asas ou garras. A aceleração do tempo histórico está deixando claro que devemos estar preparados para ocupar um espaço na sociedade globalizada.

A percepção do conjunto de movimentos que estão sendo executados no mundo exige, por parte dos nossos jovens, uma cultura que vai além da técnica. História neles.

Veja também:

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