" História, o melhor alimento para quem tem fome de conhecimento" PPDias

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Robô da Grécia Antiga era movido a trigo




(Reportagem antiga (2007), mas interessante) 


Aparelho de sábio de Alexandria do século 1 era 'programável' com corda. 

Máquina andava e apresentava show; robótica pode ser ainda mais antiga.
Reinaldo José Lopes

Do G1, em São Paulo

Foto: Divulgação
O cientista da computação Noel Sharkey, da Universidade de Sheffield (Foto: Divulgação)
Já era de esperar que o robô mais antigo do mundo não tivesse cérebro de silício ou fosse movido a eletricidade, mas nem a mente mais familiarizada com a Antigüidade seria capaz de imaginar que ele andasse e até apresentasse um teatrinho com a ajuda de... grãos de trigo.

Quem está desenterrando detalhes sobre o autômato do século 1 d.C. é o cientista da computação britânico Noel Sharkey, da Universidade de Sheffield. Sharkey vasculhou as obras teóricas de Heron de Alexandria, o legendário criador do autômato, e diz ter descoberto que ele é a primeira máquina guiada por um programa -- tal como os computadores modernos -- cujos registros chegaram até nós.

Sem disco rígido ou memória RAM, a programação tinha de ser incorporada ao robô por meio de cordas, que eram enroladas em determinada seqüência em torno dos eixos de suas rodas dianteiras. O trigo ajudava a controlar a força motriz: na parte de trás do autômato, a cordinha que estava enrolada em torno dos eixos ficava presa a um peso. Esse peso, por sua vez, ficava no alto de um tubo cheio de grãos de trigo. O tubo tinha um furo, do qual os grãos iam caindo devagarzinho: assim, o peso ia baixando cada vez mais, fazendo os eixos rodarem e o robô inteiro se mover (veja animação abaixo).


 Teatro divino
Não é a primeira vez que Heron ganha fama de pioneiro tecnológico. Relatos sobre o inventor, que viveu entre os anos 10 e 70 da Era Cristã (contemporâneo, portanto, de Jesus e dos primeiros apóstolos, como Pedro e Paulo), dão conta de que ele criou até a primeira máquina de vender bebidas da história. (A pessoa colocava uma moeda nela e recebia um jato de água benta.) Segundo os relatos, o robozinho estudado por Sharkey, além de se mover por um palco, também apresentava automaticamente um pequeno espetáculo de fantoches, envolvendo o deus grego Dioniso, senhor do vinho e do teatro.

Outros mecanismos mirabolantes são conhecidos antes da revolução da informática no século 20. Leonardo da Vinci, por exemplo, projetou um leão mecânico que caminhava e apresentava flores, usando o bicho para homenagear o rei da França em 1515. O diferencial do robô de Leonardo é que ele era programável: em vez de desmontar o bicho inteiro para que ele funcionasse de maneira diferente, bastava modificar a posição de alguns elementos internos -- no caso, braços que faziam rodar certas engrenagens, sistema parecido com o de uma caixinha de música.

Em busca de robôs programáveis ainda mais antigos, Sharkey traduziu o tratado Perí automatopoietikés (Sobre a fabricação de autômatos), escrito por Heron. No trabalho, Heron cita alguns de seus predecessores, como Ctesíbio, que viveu dois séculos antes dele, e explica parte de sua técnica. Segundo Sharkey, os fabricantes de robôs tinham uma longa escola em Alexandria, cidade que, embora ficasse no Egito, foi fundada por Alexandre, o Grande e tinha cultura profundamente grega.

"Eles estavam ligados ao grande museu e biblioteca de Alexandria. A cidade estava cheia de pesquisadores, e havia financiamento do governo [primeiro a dinastia grega dos Ptolomeus, depois os romanos] para a atividade deles", contou Sharkey ao G1. "Não sabemos sobre a vida ou posição social deles, mas eles parecem ter tido grande prestígio e escreveram muitos livros. Ctesíbio era filho de um barbeiro e mostrou seu talento logo cedo, construindo uma espécie de espelho hi-tech para seu pai."

Ao que tudo indica, porém, Heron foi muito além de todos eles ao criar a sua programação de corda. Ele dividiu o eixo das rodas dianteiras do robozinho, de forma a permitir que cada uma delas se movesse de forma independente, facilitando a execução de movimentos complexos. Cada giro da corda em volta dos eixos equivalia exatamente a uma volta completa das rodas. Assim, por exemplo, dez voltas da corda em torno de uma metade do eixo e cinco em torno de outra levaria uma das rodas a dar dez voltas para a frente e a outra, cinco para trás.

De quebra, havia até um comando de "pausa": pedaços da corda podiam ser presos com cera à lateral do robô. Enquanto o pedaço enrolado era puxado e desenrolado, o autômato ficava sem se mexer. A flexibilidade era muito grande se comparada à simplicidade de design.      

 Robótica homérica
A pergunta que fica inevitavelmente no ar é: até que ponto do passado a tradição de fazedores de robôs pode recuar? Sharkey cita uma passagem do poeta épico grego Homero (que provavelmente viveu por volta do ano 800 a.C.), no qual são descritas trípodes (uma espécie de tripé) criadas pelo deus Hefesto, o ferreiro do Olimpo. Tais trípodes teriam rodas de ouro "que as permitiam ir sozinhas para as assembléias dos deuses, uma maravilha de se contemplar", diz Homero.

"É claro que essa referência é ficcional, mas o intrigante disso tudo é que robôs em forma de trípode têm um design excelente, usado ainda hoje. Homero não tinha fama de engenheiro; portanto, é possível que ele tenha tirado a idéia de algo que já existia. Ou foi pura sorte. De qualquer maneira, acho que vale a pena investigar, e é o que estou fazendo", conclui Sharkey.

Termos históricos: Terrorismo

Em suas muitas manifestações, o terrorismo é um dos pesadelos da civilização moderna, por seu componente de irracionalidade, amplitude de suas conseqüências e impossibilidade de prevenção. Sua motivação varia da genuína convicção política à ânsia pessoal de afirmação, mas o resultado é sempre a morte, a mutilação e a destruição.
Terrorismo é o uso sistemático do terror ou da violência imprevisível contra regimes políticos, povos ou pessoas para alcançar um fim político, ideológico ou religioso. No passado, as ações terroristas foram realizadas por organizações políticas com ideologias de direita ou de esquerda, grupos étnicos, nacionalistas ou revolucionários e pelos exércitos e polícias secretas de certos governos. Mais tarde, a esses grupos somaram-se os partidários de seitas religiosas fundamentalistas.
Imperadores romanos como Tibério usaram o banimento, expropriação de propriedades e execução como meios de desencorajar a oposição a seu governo. A Inquisição espanhola valeu-se da prisão arbitrária, tortura e execução para punir o que considerava heresia religiosa. O uso do terror foi abertamente defendido por Robespierre como forma de incentivar a virtude revolucionária durante a revolução francesa, o que levou o período em que teve o domínio político a se chamar reino do terror. Depois da guerra civil americana, sulistas inconformados criaram a organização terrorista Ku Klux Klan para intimidar os negros e os partidários da reconstrução do país.
Assassinato do Arquiduque
 Francisco Ferdinando
Na segunda metade do século XIX, o terrorismo foi adotado como prática política pelos anarquistas da Europa ocidental, Rússia e Estados Unidos, na suposição de que a melhor maneira de realizar a mudança revolucionária social e política era assassinar pessoas em posições de poder. De 1865 a 1905, numerosos reis, presidentes, primeiros-ministros e outros funcionários governamentais foram mortos pelas balas ou bombas dos anarquistas.
No século XX, ocorreram grandes mudanças no uso e prática do terrorismo, que se tornou a característica de movimentos políticos de todos os tipos, desde a extrema-direita à esquerda mais radical. Instrumentos precisos, como armas automáticas e explosivos detonados a distância por dispositivos elétricos ou eletrônicos deram aos terroristas uma nova mobilidade e tornaram mais letais suas ações. O terrorismo foi adotado como virtual política de estado, embora não reconhecida oficialmente, por regimes totalitários como os da Alemanha de Hitler e a União Soviética de Stalin. Nesses países, os métodos de prisão, tortura e execução foram aplicados sem restrições ou fundamento legal, para criar um clima de medo e encorajar a adesão à ideologia nacional e aos objetivos sociais, econômicos e políticos do regime.
O terrorismo identificou-se mais comumente, no entanto, com pessoas ou grupos que tentaram desestabilizar ou derrubar instituições políticas existentes. Foi usado por um ou ambos os lados em conflitos anticolonialistas (entre Irlanda e Reino Unido, Argélia e França, Vietnam e França e depois Vietnam e Estados Unidos, por exemplo); em disputas entre diferentes grupos nacionais sobre a posse contestada de uma pátria (palestinos e Israel), em conflitos entre diferentes credos religiosos (católicos e protestantes na Irlanda do Norte); em conflitos internos entre forças revolucionárias e governos estabelecidos (Malásia, Indonésia, Filipinas, Irã, Nicarágua, El Salvador, Argentina); e em conflitos separatistas (bascos na Espanha, sérvios na Bósnia e Herzegovina, tchetchenos na Rússia).
Freqüentemente, as vítimas do terror são cidadãos escolhidos ao acaso ou que apenas se encontram inadvertidamente no lugar onde ocorre uma ação terrorista. Muitos grupos terroristas da Europa contemporânea se assemelham aos anarquistas do século XIX em seu isolamento das principais correntes políticas e a natureza pouco realista de seus objetivos. Sem base de apoio popular, substituem atividades políticas legítimas pela ação violenta, como seqüestro de pessoas, desvio de aviões, assassinato de civis e explosão de bombas em lugares públicos.
As mais famosas organizações terroristas do século XX foram as Brigadas Vermelhas na Itália, a al-Fatah (Oriente Médio), o Sendero Luminoso (Peru), O IRA (Exército Republicano Irlandês), a OLP (Organização pela Libertação da Palestina), a Ku Klux Klan, a Jihad Islâmica, Abu Nidhal, a Al-Qaeda e o ETA. Terrorismo é algo extremamente difícil de se controlar ou prevenir, especialmente se seus membros estão dispostos a correr risco de morte no processo, mas é uma ofensa criminosa em praticamente todos os códigos legais do mundo. Alguns governos têm ou tiveram ligações comprovadas com grupos terroristas, que incluem financiamento ou apoio logístico, como o fornecimento de armas e explosivos e de locais de abrigo e treino. São os casos, entre outros, do Iêmen, da Líbia, e dos países que apoiaram o regime Talibã no Afeganistão, mas também dos próprios Estados Unidos da América e outros países ocidentais.
Atentado terrorista ao WTC - 11/09/2001
 Na década de 1990, surgiu uma nova modalidade de terrorismo, de impacto ainda maior -- o terrorismo de massa, com motivação aparentemente religiosa ou política de cunho fanático. Os progressos tecnológicos e a difusão dos conhecimentos técnicos possibilitam a realização de atos terroristas com o uso de armas químicas, bacteriológicas ou biológicas, que podem disseminar a morte ou a contaminação de doenças em massa nos grandes centros urbanos de qualquer país. As razões ideológicas aparentemente deram lugar ao fanatismo religioso, especialmente dos seguidores de líderes messiânicos que divulgam idéias apocalípticas ou salvacionistas radicais.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Biblioteca Mundial


A Biblioteca Digital Mundial disponibiliza na Internet, gratuitamente e em formato multilíngue, importantes fontes provenientes de países e culturas de todo o mundo. 
A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) lançou em Paris, a Biblioteca Digital Mundial (World Digital Library, WDL), um acervo literário e artístico online disponível em português e em outras seis línguas. AWDL é, na realidade, uma midiateca e tem até agora 1,4 mil objetos digitalizados, entre livros raros, manuscritos, cartas, filmes, gravações sonoras, ilustrações e fotos.
O acervo foi reunido com contribuições de bibliotecas nacionais e instituições culturais de países como Brasil, EUA, Uganda, Iraque, China, França e Rússia. No acervo estão antigas escrituras chinesas, manuscritos científicos árabes e exemplares raros, como Bíblia do Diabo, do século 13. O Brasil contribuiu por meio da Biblioteca Nacional. Além de obter informações gerais sobre o objeto, o pesquisador pode acessar links com informações completas, fazer download das peças e convertê-las em PDF.
A WDL, mais tarde, absorverá parte do conteúdo da Europeana, que dispõe de 4,6 milhões de livros, mapas e fotografias, e da Google Book Search, que já conta com 7 milhões de obras digitalizadas. Segundo James H. Billington, diretor da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos e idealizador do site, ele vai ampliar a diversidade do material cultural disponível na web. Além disso, permitirá acesso a obras antes restritas a bibliotecas inacessíveis ao grande público. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Os principais objetivos da Biblioteca Digital Mundial são:
  • Promover a compreensão internacional e intercultural;
  • Expandir o volume e a variedade de conteúdo cultural na Internet;
  • Fornecer recursos para educadores, acadêmicos e o público em geral;
  • Desenvolver capacidades em instituições parceiras, a fim de reduzir a lacuna digital dentro dos e entre os países.


terça-feira, 12 de outubro de 2010

As colunas revolucionárias

Cap. Cardoso Barata
12.10.1930 - Partiam desta cidade duas colunas de revolucionários em direção do Estado do Espírito Santo, comandadas pelo Capitão Joaquim de Magalhães Cardoso Barata e outra pelo 1º Tenente Lourival Seroa da Motta. A coluna do Tenente Seroa da Motta, composta pelo Carro Blindado e 3 caminhões pequenos, seguiu para Faria Lemos e depois atingiu Santa Clara RJ, sem encontrar resistência. Em Santa Clara houve pânico e fuga do lugar. Aos poucos moradores que permaneceram, à titulo de requisição foi exigido a entrega de toda a cachaça e cigarros existentes no povoado. A coluna do Capitão Barata partiu pela estrada de ferro, levando a Guarda Civil e uns 200 voluntários, tendo as duas colunas se encontrado em Veado (Hoje Guaçui-ES), seguindo daí em direção a Cachoeiro de Itapemirim-ES. 


Fonte: Carelli, Rogério - Efemérides Carangolense (1827-1959)

Personalidades históricas: Miguel de Cervantes

Miguel de Cervantes

Um dos escritores de maior repercussão na literatura universal, Cervantes criou com o Dom Quixote uma das obras-primas da literatura de todos os tempos: com ela nasceu o romance moderno e seu herói tornou-se o arquétipo do idealista a qualquer preço.
Miguel de Cervantes Saavedra nasceu em Alcalá de Henares, provavelmente em 29 de setembro (dia de são Miguel) de 1547, e sabe-se que foi batizado em 9 de outubro. Estudou em Valladolid e Madri, serviu a partir de 1569 como soldado na Itália e participou, em 7 de outubro de 1571, da vitoriosa batalha naval de Lepanto contra os turcos, em que saiu gravemente ferido. Participando da expedição contra Túnis, em 1575 foi feito prisioneiro por um corsário árabe e passou cinco anos no cativeiro, mas recebeu bom tratamento de seus carcereiros, apesar das quatro tentativas de fuga, e em 1580 foi resgatado por um religioso trinitário.
De volta à Espanha, teve dificuldade em adaptar-se. Sua produção literária não obtinha sucesso e, nomeado coletor de impostos, várias vezes foi preso, em parte por denúncias falsas ou motivos não explicados. Só em 1605 a publicação do Dom Quixote aliviou-lhe a situação material. A obra teve sucesso tão grande que um anônimo, de identidade até hoje não revelada, publicou sob o pseudônimo de Alonso Fernández Avellaneda uma segunda parte apócrifa do romance. A partir de então, conseguindo ajuda financeira, Cervantes pôde dedicar-se exclusivamente à literatura.
Dom Quixote. El ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha teve seis edições no mesmo ano de sua publicação. Traduzido para o inglês e o francês, foi amplamente difundido em toda parte, até se tornar um dos mais lidos romances em todo o mundo, por crianças e adultos. Para fazer frente à falsa segunda parte lançada por Avellaneda, Cervantes, espicaçado pela fraude, publicou sua própria segunda parte em 1615. Já no prólogo da primeira afirmara ser a obra "uma invectiva contra os livros de cavalaria" que, durante muito tempo, transtornaram a cabeça das pessoas.
Se é certo esse propósito satírico, ou se há no livro um retrato irônico e melancólico da Espanha imperial e guerreira, o fato é que o romance supera de muito quaisquer intenções primeiras para transformar-se numa grande alegoria da condição e do destino humano, e do sentido universal da vida. A partir da aventura, que é o cerne da obra, Cervantes elabora a estrutura do romance num encadeamento de viagens ou saídas dos personagens, que vão sendo compostos à medida que se desenvolve a ação.
O idealismo da cavalaria e do realismo renascentista e picaresco são simbolizados nos dois personagens centrais. D. Quixote representa o lado espiritual, sublime sob certos aspectos, e nobre da natureza humana; Sancho Pança, enquanto isso, vive o aspecto materialista, rude, animal. A par disso, o humanismo e o significado filosófico conferem maior universalidade à obra, que é vista como símbolo da dualidade do ser humano, voltado para o céu e preso à terra.
Esse dualismo, muito bem ressaltado pela ideologia barroca dominante na época de Cervantes, foi muito bem assimilado por ele. É um motivo de natureza universal, particularizado em cada criatura, que o mestre procura disfarçar sob a forma de aventura cavalheiresca, inserida num mundo de fantasia: de um lado, o amor do honesto e do ideal; do outro, o do útil e do prático, dois princípios de vida que se dão as mãos no cavaleiro e no escudeiro.
D. Quixote e Sancho Pança
Situado entre os mundos renascentista e barroco, os elementos característicos de ambos se juntam nele, com predomínio do barroco. A crítica salientou a unidade da composição, típica do barroquismo, em que o grande número de episódios não desfrutam de existência autônoma, mas vivem interligados num bloco geral. Também são traços peculiarmente barrocos a disposição dos personagens em profundidade, a antítese - no plano geral, na forma, nos enlaces abstrato-concretos - , os tipos de metáfora, o paradoxo, a hipérbole, a alusão, o jogo de palavras, o encadeamento dos componentes da frase, a série assindética, o próprio dinamismo do estilo.
Por esses e outros dados da atitude barroca, o autor apóia-se em contrastes que tornam o livro cuerdo y loco (prudente e louco) e o situam entre a pregação moral e o realismo picaresco, na chamada "ordem desordenada" própria dessa tendência. Como ficou claro para os estudiosos, o traçado do romance obedece a um plano rigoroso, em que as várias excursões do cavaleiro se compõem em movimentos circulares, com os quais expressa a noção barroca do destino e a preocupação com o mundo, em que acaba por descobrir o vazio e a inanidade, a desilusão e o desengano, resultados muito distintos das peregrinações medievais e góticas, em linha reta, em direção a Deus ou à sepultura.
Exatamente por isso, o modo como o escritor soube resolver a tensão narrativa entre o real e o imaginário é uma de suas contribuições essenciais. O extraordinário é que, em sua recriação do plano ficcional, ele mantém as dimensões, as proporções, uma animação e uma estrutura de universo real. Reencontra-se o homem, estabelece-se sua moral, reconstitui-se sua verdade. O mundo, à primeira vista fantástico, é iluminado por uma virtude concreta, a caridade, ou antes, o amor do homem pelas coisas, pelos bichos, pela natureza e pelo próprio homem, redescoberto em sua dignidade primordial.
A primazia desse aspecto afetivo traduz-se numa ética de bondade, que se manifesta, em seu mais alto grau, nas relações entre D. Quixote e Sancho Pança, o cavaleiro e o escudeiro, o senhor e seu amigo, duas figuras contrastantes e ligadas por uma fraternidade de quase cerimoniosa cortesia, pela qual se prezam e se respeitam. É impossível deixar de reconhecer nesse encontro, em suas conversas e decisões, uma das imagens mais significativas da história do relacionamento humano.
Além da bondade, há em toda a narrativa uma profunda valorização da liberdade e da justiça. No caso da primeira, um dos melhores exemplos é a passagem em que Cervantes descreve a existência dos ciganos, integrados à natureza e à espontaneidade do amor. Houve, porém, quem preferisse ver a história como relato do fracasso trágico de um idealismo mal informado, assim como fracassaram na realidade as altas intenções da Espanha monárquico-católica e as do próprio Cervantes, que no início de sua vida pretendeu tornar-se soldado heróico e acabou como humilde funcionário público, na prisão e na rotina do trabalho literário.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

'Nota mais alta não é educação melhor'

Entrevista da americana Diane Ravitch, criadora do modelo de educação baseado em metas, testes padronizados, responsabilização do professor pelo desempenho do aluno e fechamento de escolas mal avaliadas, muito pertinente neste (ainda) período eleitoral, pois a 'meritocracia' é ferozmente defendida por alguns candidatos e odiada por grande parte dos professores que já são obrigados a engoli-las em São Paulo e Minas, mas que hoje é também criticada pela própria criadora.


Diane Ravitch, ex-secretária-adjunta de Educação dos EUA

02 de agosto de 2010 | 0h 00
por Simone Iwasso - O Estado de S.Paulo
Erro. Ênfase em responsabilização de professor é danosa para a educação, afirma Diane
Uma das principais defensoras da reforma educacional americana - baseada em metas, testes padronizados, responsabilização do professor pelo desempenho do aluno e fechamento de escolas mal avaliadas - mudou de ideia. Após 20 anos defendendo um modelo que serviu de inspiração para outros países, entre eles o Brasil, Diane Ravitch diz que, em vez de melhorar a educação, o sistema em vigor nos Estados Unidos está formando apenas alunos treinados para fazer uma avaliação.
Secretária-adjunta de Educação e conselheira do secretário de Educação na administração de George Bush, Diane foi indicada pelo ex-presidente Bill Clinton para assumir o National Assessment Governing Board, instituto responsável pelos testes federais. Ajudou a implementar os programas No Child Left Behind e Accountability, que tinham como proposta usar práticas corporativas, baseadas em medição e mérito, para melhorar a educação.
Suas revisão de conceitos foi apresentada no livro The Death and Life of the Great American School System (a morte e a vida do grande sistema escolar americano), lançado no mês passado nos EUA. O livro, sem previsão de edição no Brasil, tem provocado intensos debates entre especialistas e gestores americanos. Leia entrevista concedida por Diane ao Estado.
Por que a senhora mudou de ideia sobre a reforma educacional americana?
Eu apoiei as avaliações, o sistema de accountability (responsabilização de professores e gestores pelo desempenho dos estudantes) e o programa de escolha por muitos anos, mas as evidências acumuladas nesse período sobre os efeitos de todas essas políticas me fizeram repensar. Não podia mais continuar apoiando essas abordagens. O ensino não melhorou e identificamos apenas muitas fraudes no processo.
Em sua opinião, o que deu errado com os programas No Child Left Behind e Accountability?
O No Child Left Behind não funcionou por muitos motivos. Primeiro, porque ele estabeleceu um objetivo utópico de ter 100% dos estudantes com proficiência até 2014. Qualquer professor poderia dizer que isso não aconteceria - e não aconteceu. Segundo, os Estados acabaram diminuindo suas exigências e rebaixando seus padrões para tentar atingir esse objetivo utópico. O terceiro ponto é que escolas estão sendo fechadas porque não atingiram a meta. Então, a legislação estava errada, porque apostou numa estratégia de avaliações e responsabilização, que levou a alguns tipos de trapaças, manobras para driblar o sistema e outros tipos de esforços duvidosos para alcançar um objetivo que jamais seria atingido. Isso também levou a uma redução do currículo, associado a recompensas e punições em avaliações de habilidades básicas em leitura e matemática. No fim, essa mistura resultou numa lei ruim, porque pune escolas, diretores e professores que não atingem as pontuações mínimas.
Qual é o papel das avaliações na educação? Em que elas contribuem? Quais são as limitações?
Avaliações padronizadas dão uma fotografia instantânea do desempenho. Elas são úteis como informação, mas não devem ser usadas para recompensas e punições, porque, quando as metas são altas, educadores vão encontrar um jeito de aumentar artificialmente as pontuações. Muitos vão passar horas preparando seus alunos para responderem a esses testes, e os alunos não vão aprender os conteúdos exigidos nas disciplinas, eles vão apenas aprender a fazer essas avaliações. Testes devem ser usados com sabedoria, apenas para dar um retrato da educação, para dar uma informação. Qualquer medição fica corrompida quando se envolve outras coisas num teste.
Na sua avaliação, professores também devem ser avaliados?
Professores devem ser testados quando ingressam na carreira, para o gestor saber se ele tem as habilidades e os conhecimentos necessários para ensinar o que deverá ensinar. Eles também devem ser periodicamente avaliados por seus supervisores para garantir que estão fazendo seu trabalho.
E o que ajudaria a melhorar a qualidade dos professores?
Isso depende do tipo de professor. Escolas precisam de administradores experientes, que sejam professores também, mais qualificados. Esses profissionais devem ajudar professores com mais dificuldades.
Com base nos resultados da política educacional americana, o que realmente ajuda a melhorar a educação?
As melhores escolas têm alunos que nasceram em famílias que apoiam e estimulam a educação. Isso já ajuda muito a escola e o estudante. Toda escola precisa de um currículo muito sólido, bastante definido, em todas as disciplinas ensinadas, leitura, matemática, ciências, história, artes. Sem essa ênfase em um currículo básico e bem estruturado, todo o resto vai se resumir a desenvolver habilidades para realizar testes. Qualquer ênfase exagerada em processos de responsabilização é danosa para a educação. Isso leva apenas a um esforço grande em ensinar a responder testes, a diminuir as exigências e outras maneiras de melhorar a nota dos estudantes sem, necessariamente, melhorar a educação.
O que se pode aprender da reforma educacional americana?
A reforma americana continua na direção errada. A administração do presidente Obama continua aceitando a abordagem punitiva que começamos no governo Bush. Privatizações de escolas afetam negativamente o sistema público de ensino, com poucos avanços de maneira geral. E a responsabilização dos professores está sendo usada de maneira a destruí-los.
Quais são os conceitos que devem ser mantidos e quais devem ser revistos?
A lição mais importante que podemos tirar do que foi feito nos Estados Unidos é que o foco deve ser sempre em melhorar a educação e não simplesmente aumentar as pontuações nas provas de avaliação. Ficou claro para nós que elas não são necessariamente a mesma coisa. Precisamos de jovens que estudaram história, ciência, geografia, matemática, leitura, mas o que estamos formando é uma geração que aprendeu a responder testes de múltipla escolha. Para ter uma boa educação, precisamos saber o que é uma boa educação. E é muito mais que saber fazer uma prova. Precisamos nos preocupar com as necessidades dos estudantes, para que eles aproveitem a educação.
QUEM É
É pesquisadora de educação da Universidade de Nova York. Autora de vários livros sobre sistemas educacionais, foi secretária-adjunta de Educação e conselheira do secretário de Educação entre 1991 e 1993, durante o governo de George Bush. Foi indicada pelo ex-presidente Bill Clinton para o National Assessment Governing Board, órgão responsável pela aplicação dos testes educacionais americanos.

sábado, 9 de outubro de 2010

O tiroteio, os bois e o leão.

Praça Cel Maximiano - Década de 1930
09.10.1930 - Ocorria um tiroteio no jardim da Praça Cel. Maximiano pondo em sobressalto a população. Há vários dias que a cidade vivia intranquila, devido boatos que a Força Pública do Espírito Santo estava se preparando para invadir Minas Gerais através de Carangola. Grande número de fiéis, praticamente lotavam a Igreja Matriz, orando para que a revolução terminasse e a paz fosse restabelecida no país. Por volta das 20:00, foram ouvidos disparos no jardim. Os transeuntes que se refugiaram na Matriz entraram dizendo "que a revolução havia chegado". Houve pânico no interior da igreja, sendo o ofício religioso interrompido, tendo o padre José Beltrão subido num dos bancos e fazendo soar uma campainha, pedia calma a todos. O que havia ocorrido, é que alguns bois requisitados da Fazenda do sr. Pedro Evaristo, na Serra da Suiça, vinham sendo tangidos a galope pela Rua Quinze de Novembro, quando uma vaca atacou um grupo de pessoas que se achava num banco do jardim. A reação ao ataque foi atirar no animal, mas uma pontaria bem deficiente, fez com que fossem disparados mais de 50 tiros sem que o mesmo fosse atingido, sendo morto finalmente na Rua Santa Luzia. O incidente provocou as reações mais diversas, durante e após o esclarecimento do fato. O antigo chefe político Cel. Francisco José da Silva Novaes, contando na época com 72 anos de idade, surgiu no jardim com sua famosa carabina e um saco de balas, procurando pelos supostos invasores, tendo afirmado "que enquanto fosse vivo, capixaba daqui não passava". Os dois elementos encarregados da guarda do depósito de armas e munições que estava instalado na sala de reuniões da Câmara, fugiram pela Rua Marechal Floriano Peixoto. Num circo armado na Rua Quintino Bocaiúva, naquele momento estava sendo apresentado um número de um domador na jaula com um leão. Ao serem ouvidos os disparos no jardim, o público em pânico desceu das arquibancadas, e fugiu em direção ao Bairro Triângulo. O domador fez o mesmo e abandonou a jaula deixando a porta aberta, sendo por um lance de sorte, que o animal não fugiu durante aquela confusão. 


Igreja Matriz de Santa Luzia - Década de 1930
Fonte:  Carelli, Rogério - Efemérides Carangolenses (1827-1959)
Imagens: Quadros de Wellington Vilella - www.wvilela.com.br 

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Barata e o Caminhão blindado, ou quase...

08.10.1930 - Após uma viagem arriscada através do Estado do Espírito Santo, conseguia chegar a Carangola o capitão do Exército Joaquim Magalhães Cardoso Barata. Logo no início da revolução, o capitão Barata tentou atrair para a facção revolucionária o 3º Batalhão de Caçadores de Vitória e a Força Pública do Espírito Santo. Mas, o governo do Presidente Aristeu Aguiar se mantinha no controle da situação e favorável ao governo federal. O capitão Barata teve que fugir imediatamente num automóvel, simulando seu um passageiro, vestido com um uniforme de maquinista da estrada de ferro. Quando seu carro viajava entre Cachoeiro do Itapemirim e Veado (hoje Guaçui-ES), a polícia capixaba informada do seu paradeiro, enviou um telegrama para a Delegacia de Veado que dizia: "impeça Barata ultrapassar Veado". entretanto o telegrama foi transcrito com o sobrenome Barata em letras minúsculas. Seguindo escrupulosamente o texto a polícia local montou uma barreira e passou a impedir a passagem de carros do tipo sedan (baratinha). O Capitão Barata, que vinha num carro 4 portas, ao perceber a barreira, fez acelerar o máximo conseguindo ultrapassar, mas recebeu vários tiros disparados pelo sr. Manoel Alves de Siqueira, que atingiram o carro mas nenhum passageiro. 

08.10.1930 - A oficina mecânica Pistono & Irmão, era requisitada pelo Comitê de Defesa da Cidade, para transformar um caminhão comum num carro blindado, destinado a apoiar o contingente revolucionário, que deveria invadir o Estado do Espírito Santo. O caminhão pertencia à sra. Maria Miranda, fazendeira em Varginha (hoje Lacerdina) e fora requisitado quando o sr.Cezário Miranda, que tinha vindo à cidade trazer algumas pessoas para assistirem a missa paroquial do Domingo, desembarcava os passageiros na porta da Igreja Matriz. O caminhão foi então apreendido pela polícia e alguns elementos civis que usavam lenços vermelhos no pescoço. A orientação técnica para transformar o veículo em carro blindado ficou a cargo do sr. Ivan Schimilewski, ex-oficial do Exército Imperial Russo, que havia combatido na 1ª guerra Mundial e durante a Guerra Civil em seu país, havia lutado pelo czar, contra a revolução comunista. Na falta de aço próprio para blindagens, empregou-se chapas de ferro, que outrora haviam servido de cano da turbina da Companhia industrial Carangolense e bueiro da ferrovia. Assim foi fabricado um simulacro de carro blindado, cuja blindagem era vulnerável até mesmo a um tiro de revolver, mas esse detalhe só era conhecido pelos proprietários e os operários da oficina mecânica. Durou 4 dias o serviço, trabalhando dias e noites consecutivas. Uma vez fabricado, percorreu as ruas da cidade, sendo fotografa em vários lugares com grupos de pessoas. 

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Olimpíada Nacional em História do Brasil

Certificado adaptado

"O segredo de progredir é começar. O segredo de começar é dividir as tarefas árduas e complicadas em tarefas pequenas e fáceis de executar, e depois começar pela primeira". (Mark Twain)

Parabéns aos alunos Ana Paula, Ariana e Gilberto, considerem-se vitoriosos, vocês cumpriram com dedicação e empenho todas tarefas que lhes foram atribuídas, chegaram a um patamar interessantíssimo na busca pelo conhecimento cultural e pessoal . Até a 3ª ONHB. 

A ocupação.

06.10.1930 - Partia de Carangola, seguindo ordens do 1º tenente Lourival Serôa da Motta, um contingente de voluntários carangolenses, sob o comando do tenente Orozimbo Corsino, com a missão de ocupar Porciúncula e Natividade, no Estado do Rio de Janeiro. Estas localidades foram facilmente ocupadas, sendo nomeado Delegado Militar de Natividade o tenente comissionado Luiz Carlos da Silva. A Agência Americana, concessionária da Estação Rádio-Telegráfica do município, tentou incutir um sentimento de derrotismo, junto à população de Carangola, devido o Dr. Waldemar Soares ter requisitado sua aparelhagem e remetido a mesma para Recreio, MG, onde permaneceu à serviço do Quartel General Revolucionário, para suas comunicações com Belo Horizonte. 

Fonte:  Carelli, Rogério - Efemérides Carangolenses (1827-1959)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Os voluntários

Pelotão de voluntários carangolenses
05.10.1930 - Chegava a esta cidade (Carangola) o major do Exército Oto Barcelos Feio, para combinar com o Presidente da Câmara Dr. Waldemar Soares de Souza, os planos de defesa desta cidade, em face da mesma estar participando de uma revolução contra o governo federal. Ficou determinado a formação de batalhões de voluntários, que deveriam invadir e ocupar os Estados de Espírito Santo e Rio de Janeiro. No mesmo dia regressou a Recreio, onde estabeleceu o Quartel General do Setor Leste Mineiro. Propalada a notícia da necessidade de voluntários, apresentaram-se ao Comando Revolucionário local, 400 cidadãos de todas as classes sociais. Foi criado um Comitê de Defesa da cidade, encarregado de receber as adesões dos voluntários dispostos a lutar. 

Fonte:  Carelli, Rogério - Efemérides Carangolenses (1827-1959)

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Estado de guerra

Estação Ferroviária de Carangola
04.10.1930 - Seguindo as instruções recebidas do governo estadual, sublevado contra o governo federal desde o dia anterior, à 01:00 da madrugada, o Dr. Waldemar Soares de Souza, Presidente da Câmara Municipal de Carangola, fazia seguir para Aimorés um automóvel, conduzindo um emissário levando instruções do governo estadual para o Presidente da Câmara Municipal daquela cidade Dr. Antônio Augusto Ribeiro Junqueira, que se encontrava em Além Paraíba. Durante este dia, o Delegado Regional de Polícia Dr. Aldrico Goulart seguindo instruções do governo municipal, procedia um levantamento do estoque de gasolina, alimentos, armas e munições existentes na cidade. À tarde chegava de Niterói o 1º tenente do Exército Lourival Serôa da Motta, acompanhado por 15 praças da Força Pública de Minas Gerais. Após rápida conferência com o Dr. Waldemar Soares no Paço Municipal, ordenou a ocupação da estação ferroviária e Agência do Telégrafo, confiando a direção de ambas repartições ao Sr. Manoel Oscar Zamith.

Fonte:  Carelli, Rogério - Efemérides Carangolenses (1827-1959)

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