Todos sabem que na vida tudo passa: amanhã, o dia de hoje será um
tempo passado. Mas, para a ciência, passado, presente e futuro são um grande
mistério
por Paul Davies
Toda a nossa experiência de vida
baseia-se na suposição elementar de que o tempo pode ser dividido em
passado, presente e futuro. E que o ritmo incessante do tempo empurra
para a frente o momento atual, aquilo que chamamos "agora". O tempo
passa sem parar e converte o futuro em passado. O momento presente,
situado no meio de ambos, é apenas um instante infinitamente curto. Nos
anos 50, porém, Albert Einstein afirmou: "Para nós, físicos presunçosos
passado, presente e futuro são apenas ilusões". Que será que Einstein
queria dizer com isso? A resposta pode ser buscada na Física, na
Filosofia e na Psicologia. No nível psicológico, nossa experiência
consciente do tempo parece estar claramente delimitada. Considera-mos
que os acontecimentos do mundo estão "ocorrendo" e não apenas que
"existem". Além disso, eles ocorrem de forma ordenada. Um momento se
segue sistematicamente a outro. É inconcebível a ideia de adormecer na
terça e acordar na segunda. Ao meditarmos sobre o tempo temos três zonas
nas claramente diferenciadas: passado presente e futuro. Segundo a
crença geral o passado é composto de eventos que já aconteceram -
portanto, já não existem. O que resta deles são as imagens que guardamos
em nossa memória. Nada pode modificar o passado.
Da mesma forma
que o passado, o futuro consta de acontecimentos que não existem - e
ninguém tem condi-ções de saber nada sobre eles. A fronteira entre, o
passado e o futuro é presente. E uma fronteira móvel. A medida que o
tempo vai avançando, o futuro se converte em presente e, em seguida,
quase imediatamente, em passado. Os acontecimentos atuais se distinguem
dos futuros em um ponto: eles são reais. A realidade do mundo exterior é
a realidade do momento atual. Quando falamos do passado ou do futuro,
sabemos que não está ao nosso alcance interferir nessas regiões. Por
outro lado, o presente é o momento no qual podemos ter uma troca
recíproca com o mundo. Essa interação momentânea se dá em duas direções:
1) do mundo exterior nos chegam impressões captadas pelos sentidos; 2)
em face do mundo exterior podemos agir, de acordo com decisões
conscientes. Tais ações parecem ocorrer agora, ou seja, no presente.
Tudo
isso é tão simples, quase banal. E, no entanto, chega a causar confusão
em determinadas ocasiões. Por exemplo: o que queremos dizer quando
afirmamos que estamos vivendo conscientemente o presente? Com freqüência
não vivemos o presente, porque estamos ocupados com outra coisa. A
forma como percebemos o tempo depende decisivamente do que passa por
nossa cabeça a cada momento. Se estamos envolvidos com algo muito
interessante, o tempo passa voando: muitos momentos do presente nem
sequer são percebidos. Por outro lado, quem espera por algo e está
plenamente concentrado nessa espera sentirá os segundos passarem com
extrema lentidão. Não há a menor dúvida de que uma hora na sala de
espera do dentista passa muito mais devagar do que uma hora no cmema.
Mas
quanto dura o presente? Ele não marca de modo algum uma linha divisória
rígida entre o passado e o futuro. Essa linha é mais tênue e o que a
move é nossa consciência, que reage lentamente. Muitos eventos acontecem
tão depressa que nos parecem repentinos. Por exemplo, um filme de
cinema composto de uma seqüência de imagens imóveis. Só porque
projetadas sucessivamente com grande rapidez nos dão a impressão de
movimento contínuo. Já os processos que ocorrem no mundo da Física
subatômica estão totalmente fora da nossa capacidade de percepção, de
velozes que são.
Quem quiser separar o tempo em passado, presente
e futuro encontrará outras dificuldades no plano da Física moderna, em
que nada se parece com o conceito de agora. Isaac Newton, no século
XVII, escreveu sobre o tempo "absoluto verdadeiro e matemático que
transcorre uniformemente." Ele tentou descartar o fator subjetivo,
introduzindo a idéia de medição matemática precisa do tempo, com
relógios. Nas fórmulas de movimento de Newton, o tempo certamente
existe, embora apareça como uma magnitude, não como uma quantidade
variável. Não há nada que caracterize um presente que se encontra em
movimento. Das fórmulas de Newton se deduz uma conseqüência lógica. Se
supusermos a existência de um sistema físico fechado - isto é, ilhado -,
e contemplarmos seu estado em um momento qualquer, também ficará fixada
para sempre a totalidade dos estados futuros.
Em outras
palavras: o estado de um sistema em um momento qualquer determina, de
uma vez por todas, toda a sua história. A imagem newtoniana do mundo
reduz o tempo a uma questão contábil. O tempo está aí, para pôr
etiquetas nos acontecimentos. No universo newtoniano não pode ocorrer
nada verdadeiramente novo, pois as informações necessárias para
construir o futuro já existem no presente. O livro cósmico está
totalmente escrito desde há muito e aquilo que denominamos tempo nada
mais é que um meio de numerar suas páginas.
Naturalmente, a
Física não parou em Newton. Com a Teoria Especial da Relatividade, de
Albert Einstein, publicada em 1905, o conhecimento dos físicos sobre o
tempo deu um salto gigantesco. Einstein relacionou o tempo muito
estreitamente ao espaço e converteu ambos em fenõmenos físicos. Em
conseqüência, muitas opiniões intuitivas sobre o tempo foram
abandonadas.
Antes de Einstein, qualquer um poderia afirmar que
dois acontecimentos haviam ocorrido em lugares diferentes. Isto é o que
precia se deduzir do conceito de presente. Se alguém dissesse "eu
gostaria de saber o que está ocorrendo agora em Marte", ninguém diria
que isso não tinha sentido. Agora era um conceito vigente em toda parte.
Parecia que todo o Universo tinha o mesmo presente.
A Teoria da
Relatividade destruiu a base dessas convicções. Einstein ensinou que
dois acontecimentos podem ocorrer simultaneamente para um observador,
enquanto outro observador que se mova em relação ao primeiro perceberá
os dois acontecimentos um depois do outro. Um terceiro observador poderá
até ver os dois acontecimentos numa ordem sucessiva e inversa à do
segundo observador. Naturalmente que na vida diária não existe nada
parecido – porque neste âmbito as distâncias e as velocidades são
demasiado pequenas para que se possa notar a relatividade. Mas ela
existe e suas conseqüências são de grande alcance.
De tudo isso
pode se tirar uma única conclusão: não existe nenhum momento atual que
seja válido universalmente. Não existe nenhum agora que seja igual de um
extremo do Universo a outro. O conceito de presente é uma questão
puramente pessoal e só tem significado como ponto de referencia para o
observador, dependendo de seu estado de movimento. Acontecimentos em
lugares muito distantes entre si podem estar no futuro para determinado
observador e no passado para outro. Se assim é, torna-se insensato
dividir ordenadamente o tempo em passado, presente e futuro. A Teoria da
Relatividade parece nos levar a uma imagem do Universo na qual o tempo,
da mesma forma que o espaço, se encontra diante de nós em toda a sua
dimensão.
Nessa imagem, passado, presente e futuro são apenas
etiquetas psicológicas sem significado algum do ângulo das ciências
naturais. Os acontecimentos simplesmente estão aí. Se o tempo é
deslocado do espaço desse modo, perde naturalmente qualquer propriedade
de fluência. E mais: em lugar da experiência psicológica de um mundo
dinâmico, que continua se desenvolvendo constantemente, tem-se uma
imagem de quietude na qual "o mundo não transcorre, mas simplesmente
existe", como disse o matemático Hermann Weyl. O movimento do presente
em direção ao futuro não aparece em nenhuma das fórmulas da Física.
Assim, Einstein pôde insistir que passado, presente e futuro são apenas
ilusões.
Apesar disso tudo, não há como duvidar de que os
acontecimentos se posicionam numa ordem sucessiva e que essa ordem tem
uma direção. Do contrário não poderia existir a causalidade, que é a
determinação de um acontecimento por outro. A causalidade só é possível
se existir uma relação antes/depois.
Um exemplo simples: quando
se dispara um tiro contra um vaso de cerâmica e este se rompe em mil
pedaços, não pode haver dúvida: o vaso ficou em pedaços depois de ter
sido atingido pelo disparo. Visto a partir da causa, o efeito se
encontra no futuro. Isso se comprova imediatamente ao projetar-se de
trás para a frente um filme que se tivesse feito esse epsódio: teríamos a
impressão de que o vaso voltou à sua forma original. Ora, isso nada tem
a ver com a realidade.
O tempo, portanto, tem uma direção e esse
fato impregna todo o Universo. Há mais de um século os cientistas
discutem de forma acaladora a que isto se deve. Os físicos descrevem
freqüentemente a direção do tempo com a figura de uma seta que aponta
para o futuro a partir do passado. Infelizmente, essa comparação
produziu muita confusão. É legítimo falar de uma orientação do Universo
no tempo, que assinala desde o passado até o futuro. O difícil é
denominar com ela a direção do fluxo do tempo. Essa diferença fica clara
ao se pensar na agulha de uma bússola. Ela assinala o norte apenas
porque os homens assim o convencionaram. Seu significado é o de que o
campo magnético da Terra está orientado, que existe uma assimetria, que a
direção sul-norte não é o mesmo que norte-sul.
Quando dizemos
que uma seta de tempo mostra a direção do passado até o futuro, só
estamos querendo indicar que no Universo existe uma assimetria ou
direcionalidade e que a direção rumo ao passado é distinta da direção
rumo ao futuro. Essa assimetria não pressupõe que o tempo efetivamente
voe como uma seta ou flua em direção ao futuro. Mas será que o presente
existe de verdade como algo realmente objetivo, ou é apenas uma invenção
psicológica? Há muito tempo os filósofos brigam por causa dessa
questão.
De um lado, estão os que defendem um presente real; são
os chamados teóricos A, cujo expoente foi o alemão Hans Reichenbach
(1891-1953). Seus oponentes são os teóricos B, entre os quais se
destacam Afred Ayer e Adolf Grünbaum. O grupo A utiliza os conceitos de
passado, presente e futuro e a rica variedade de tempos das línguas
modernas - como o pretérito imperfeito, perfeito e mais-que-perfeito.
O
segundo modo de tratar a sucessão do tempo defendida pelo grupo B,
baseia-se em um sistema de datas. Os acontecimentos são marcados segundo
a data em que ocorreram. Desse modo se consegue ordená-Ios de forma
clara. Ou seja, dado que o momento atual esta sempre avançando no tempo,
os acontecimentos do futuro chegam ao presente e passam deste até o
passado. Um único acontecimento, contudo, não pode estar simultaneamente
no passado, no presente e no futuro.
Diante de toda essa
argumentação, alguém poderá alegar: digam o que disserem os físicos,
hoje minha xícara de café quebrou em mil pedaços ao cair da mesa; isso
ocorreu às 4 da tarde e representa uma mudança para pior em relação à
situação anterior a essa hora. Ora, dirá o teórico do grupo B, a mudança
é apenas uma ilusão. Tudo o que você disse é que a xícara estava
inteira antes das 4 da tarde, que depois das 4 estava quebrada e que às 4
houve um momento de transição. Essa forma neutra de descrição contém
exatamente a mesma informação, porém não afirma que o tempo tenha
passado. E absolutamente desnecessário dizer que o estado da xícara
variou desde inteiro até quebrado. Tudo o que há são dados sobre o tempo
e o estado da xícara, simplesmente.
Que diz disso o teórico A?
Ele afirma, por exemplo, que só se pode compreender o movimento dos
ponteiros do relógio se existir algo como o tempo, a não ser que o
movimento dos ponteiros esteja relacionado com outra coisa, como o
movimento da Terra. Daí, então, teremos de perguntar: o que ocorre com a
rotação da Terra? Com o que se relaciona? E assim por diante, numa
série de perguntas aparentemente sem fim. Mas o que haveria no final
dessa cadeia?
O último relógio seria o próprio Universo. Ao
dilatar-se cada vez mais no espaço, o Universo fixa um tempo cósmico. Há
alguns anos, os físicos começaram a estudar o movimento do Universo com
a ajuda da Mecânica Quântica - chegaram a uma descoberta interessante: o
tempo cósmico está totalmente fora das fórmulas. Resultado: qualquer
variação só pode ser medida por meio de correlações (relações de
mudança). No final desse raciocínio vamos relacionar tudo com a
magnitude do Universo. Assím, desaparece qualquer idéia de um presente
em movimen-to. E o que sempre afirmaram teóricos B.
De toda forma,
continua existindo o fato de que sentimos que o tempo passa. Einstein,
como vimos, denominou esse sentimento de ilusão. Há exemplos claros de
ilusões do movimento. Quando giramos depressa ao redor de nós mesmos e
paramos de repente, temos a impres-são de que tudo à nossa volta
continua girando. Na realidade tudo estáparado. Será que a sensação de
que o tempo passa é uma ilusão semelhante a essa? De seu lado, os
físicos mais destacados da atualidade procuram esclarecer se é falsa a
proposição de Newton segundo a qual o futuro está contido no presente. O
motivo estaria relacionado com o descobrimento do caos determinista.
Com
esta expressão os cientistas se referem aos sistemas físicos dinâmicos,
cuja evolução pão se pode visualizar antecipadamente. A Meteorologia,
por exemplo, tem muito a ver com esses sistemas - o que talvez seja uma
boa explicação para o grande número de equívocos nessa área. Um segundo
campo de investigação é a própria Teória Quântica e o papel nela
desempenhado pelo observador. Segundo ela, a natureza, ao nível atômico,
é necessariamente indeterminada. Não é possível predizer qualquer fato
partindo de fatores conhecidos. Se um observador dos átomos efetuar
neles uma medição, com esse próprio ato modificará o que desejava medir.
Na Física Quântica, o possível se converte em real por meio da mera
observação. Isso pode ter algo a ver com o cha-mado fluxo do tempo.
Aqui, é claro, se está em pleno território das especulações. Ainda não
sabemos se algum dia poderemos demonstrar que elas são verdadeiras. A
resposta, por ora, só pode ser esta: o tempo dirá.
[ Fonte: Revista
Super Interessante ]