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sexta-feira, 6 de maio de 2011

Brasil, Terra de profetas

Condenados ou não pelas autoridades religiosas, muitos brasileiros e portugueses ousaram prever o futuro ao longo de nossa história
Jacqueline Hermann
Ilustração - Antônio Conselheiro
“Em verdade vos digo, quando as nações brigam com as nações, o Brasil com o Brasil, a Inglaterra com a Inglaterra, a Prússia com a Prússia, das ondas do mar D. Sebastião sairá com todo o seu exército”, teria dito Antônio Conselheiro, líder do arraial de Canudos de 1893 a 1897. Entre as muitas profecias que lhe foram atribuídas, teria previsto a guerra iniciada em 1896 – “Nação com a mesma Nação” – contra o Império do Belo Monte e as quatro expedições militares enfrentadas pelo arraial onde ele se reuniu com um grupo crescente de seguidores. Divulgadas por Euclides da Cunha no clássico Os Sertões (1902), essas profecias forjaram a imagem misteriosa do Conselheiro, ora beato, ora profeta, por vezes o próprio messias, mas também fanático e bárbaro, oscilando da santidade ao crime, da pureza da fé católica ao comando de uma cidadela insubordinada.

Protótipo do “profeta” popular, Antônio Conselheiro encarna ainda hoje o exemplo máximo de um tipo social que encontramos no Brasil desde os primeiros anos de nossa vida colonial. Se ainda não temos prova dessas “previsões”, em nada a aura de santo ou de visionário fica alterada. Muitos aspectos ligam o Conselheiro às profundas e antigas raízes do profetismo luso-brasileiro, entre as quais sua adesão ao sebastianismo, também indicada por Euclides da Cunha, baseado na crença de que a chegada do rei D. Sebastião poria fim às guerras e iniciaria um novo tempo de paz e harmonia. Desaparecido na batalha de Alcácer Quibir em 1578, o rei português passou a ser esperado como um novo messias capaz de restaurar a unidade católica do mundo. O fenômeno surgido dessa espera – o sebastianismo – teria tido também seu profeta, Gonçalo Annes Bandarra, cujas trovas foram tomadas como profecia, pois previram a volta de um rei Encoberto para restaurar a grandeza e a glória de Portugal.

Com as grandes levas de cristãos-novos – judeus convertidos ao cristianismo – que chegaram no início da colonização do Brasil, também vieram a espera messiânica, as previsões proféticas, o sebastianismo e o sapateiro Bandarra. Seus versos aparecem em documentos desde o final do século XVI. Na Primeira Visitação às Partes do Brasil, entre 1591 e 1595, o Santo Ofício registrou alguns casos de candidatos a profetas e messias, além de numerosas denúncias de práticas judaizantes reproduzidas na América. No conjunto, no entanto, foram poucos os profetas de origem cristã-nova encontrados em solo brasílico, mas as previsões sobre a espera do Messias deixaram aqui sua semente.

Esse messianismo ibérico encontrou outras formas de religiosidade indígena a desafiar os jesuítas que aqui chegaram em 1549. Os “soldados de Cristo” viram-se diante de rituais e cerimônias desconhecidos e indecifráveis. Para o padre Manoel da Nóbrega (1517-1570), o líder espiritual indígena que visitava as aldeias em dia de festa “fingia trazer santidade” quando praticava antigos rituais tupi-guaranis, comandados por caraíbas. Muitas foram as interpretações sobre os sentidos dessas práticas, mas não parece haver dúvida sobre sua base profética: os “profetas” dos tupis eram os caraíbas, pajés superiores com poder de comunicação com os espíritos e de transmitir esse dom por meio da defumação com a “erva santa”, ou tabaco, como entenderam os jesuítas.

Essa base mística indígena foi somada à espera messiânica de origem judaica. E diversas outras manifestações da religiosidade popular se irradiaram a partir de lideranças individuais. As visionárias Joana da Cruz e Luzia de Jesus afirmaram ter contato direto com o Criador e as almas, além de terem sido eleitas por Ele para continuar Sua obra na terra. Condenadas pelo Santo Ofício na segunda metade do século XVII, foram degredadas para o Brasil, onde provavelmente continuaram a exercitar suas predições.

Do século XVIII, pelo menos mais dois casos merecem destaque. O de Pedro de Rates Hanequim, português que trabalhou nas Minas Gerais por cerca de vinte anos e elaborou um ousado “tratado” de 101 teses, no qual afirmava ser o Brasil lugar de realização do Quinto Império na terra. Algumas de suas ideias se assemelham às do célebre jesuíta Antônio Vieira (1608-1697), preso e condenado pela Inquisição portuguesa nos anos 1660. Foi contemporâneo das visionárias Joana e Luzia e inspirador de projetos messiânicos cuja extensão é difícil medir [ver “O visionário da Amazônia”, p. 22]. Para Hanequim era diferente: ele mesmo era o autor das previsões que fariam do Brasil a sede do novo e derradeiro império [ver “Mártires da heresia”, p. 25].

O outro caso é o de Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz, precioso por indicar o quanto a mescla de elementos variados se combinou nas visões dessa “profetisa” negra. Africana da Costa da Mina, chegou ao Brasil como escrava em 1725. Vendida para Minas Gerais, prostituiu-se, e desde 1750 passou a ter visões místicas. Tornou-se beata e reconhecida por brancos, negros e padres. Acreditava ser a encarnação do próprio messias, ter encontrado D. Sebastião em uma nau, e que com ele se casaria e criaria um Império mestiço. Foi presa e processada pela Inquisição em 1762.

Do século XIX, os exemplos são numerosos. No agreste pernambucano, cerca de 200 a 400 pessoas se reuniram em torno dos ex-milicianos Silvestre José dos Santos e Manoel Gomes das Virgens para esperar D. Sebastião e inaugurar um novo tempo de paz, riqueza e harmonia. Os líderes recebiam mensagens de uma santa, guardada numa pedra, que profetizava a volta do Encoberto. Denunciado, o grupo foi debelado em 1820. Em 1836, também em Pernambuco, o mameluco João Antônio dos Santos pregou a volta do mesmo rei, guardado na gruta da Pedra Bonita, de onde sairia o rei trazendo imensas riquezas. Vários líderes sucederam a João Antônio e se disseram reis-profetas, prevendo a chegada de D. Sebastião depois que a pedra fosse banhada de sangue. No final de 1838, o grupo foi dissolvido pelas forças militares.

Houve também profetas não sebastianistas, como o sacerdote negro Antônio Sodré.  Nascido em 1797 na Nigéria, foi alforriado em 1836 e se notabilizou como adivinho e curandeiro em Salvador. Atendia brancos e negros até ser preso em 1862, acusado de “amansar” senhores e promover eventos relacionados ao candomblé. No Rio Grande do Sul, um grupo de imigrantes alemães seguiu a “profetisa” Jacobina, que anunciou grandes acontecimentos e afirmou ser a reencarnação de Cristo. Como tantos outros, foram combatidos pelas forças legais.

Em 1872, instalou-se em Juazeiro o padre Cícero Romão Batista (1844-1934), o futuro “Padim Ciço”, que não foi “profeta”, mas considerado verdadeiro santo no Nordeste. Ganhou fama através dos milagres de suas beatas, sobretudo Maria de Araújo (1863-1914), que recebeu uma hóstia que teria se transformado em sangue em 1889. O caso, primeiro validado e depois condenado como embuste pelas autoridades religiosas, não impediu que a fama de “santidade” de Cícero se espalhasse. Se não foi profeta, foi intermediário entre a hóstia e Maria.  

Profetas, visionárias, místicos, adivinhos, santos – muitos foram os candidatos a intermediários dos desígnios de deuses das mais variadas crenças. Marginalizados e perseguidos, foram seguidos, reverenciados, esquecidos. O catolicismo do Brasil deixou sua marca, mas foi sempre desafiado por inusitadas combinações sincréticas. As histórias aqui contadas, mesmo fragmentadas, ajudam a compreender parte da riqueza do Brasil mestiço.

Jacqueline Hermann é professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autora de No reino do Desejado – A construção do sebastianismo em Portugal, séculos XVI e XVII. (Companhia das Letras, 1998).

[Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional]

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A Companhia de Jesus


Apesar das diversas vicissitudes por que passou, a Companhia de Jesus tem perseverado nos ideais de defesa da fé católica que inspiraram sua criação, pautada por uma rígida disciplina de influência militar.
Os jesuítas -- nome dado comumente aos membros da Companhia de Jesus -- formam uma ordem religiosa masculina fundada em 1540 por santo Inácio de Loiola, sacerdote espanhol, como "um esquadrão de cavalaria ligeira" à disposição do papa. A atividade intelectual, pedagógica, missionária e assistencial dos jesuítas se realizou sempre sob o lema Ad Majorem Dei Gloriam ("Para a maior glória de Deus"), abreviada pela sigla A.M.D.G. Pela dedicação a seus objetivos, os jesuítas receberam as mais radicais reprovações e os mais exaltados elogios.
Fundação e expansão. Durante a convalescença de um ferimento recebido em 1521, na defesa de Pamplona, o jovem aristocrata e militar Inácio de Loiola experimentou uma profunda conversão espiritual, inspirada pela leitura de livros sobre as vidas dos santos, o que o levou a dedicar-se ao serviço de Cristo. Retirado em uma gruta, perto do santuário catalão da Virgem de Montserrat, na cidade de Mauresa, ali redigiu e praticou seus Exercícios espirituais.
Mais tarde, enquanto estudava teologia em Paris, atraiu, com os Exercícios espirituais, seis entusiastas companheiros; juntos fizeram votos de pobreza, castidade e obediência e de peregrinar a Jerusalém, formando assim o núcleo da futura ordem. O papa Paulo III aprovou em 1540 a nova ordem, com o nome de Companhia de Jesus e, no ano seguinte, Loiola foi eleito superior geral.
A ânsia de dar maior agilidade e eficácia à nova ordem, levou Loiola a suprimir a obrigatoriedade de algumas práticas tradicionais, como a assistência diária ao ofício litúrgico no coro ou determinadas penitências e jejuns. Em troca, deu ênfase à obediência, reforçando o princípio da autoridade e da hierarquia e introduzindo um voto especial de obediência ao papa.

Inácio de Loyola obtém a aprovação do Papa Paulo III
para a Companhia de Jesus, em 1540.             
Durante o século XVI, a Companhia de Jesus estendeu-se rapidamente por toda a Europa e  incentivou a reforma interna da Igreja Católica para contrapor-se à Reforma luterana. Participou ativamente do Concílio de Trento e das disputas teológicas; empenhou-se na pregação religiosa e no ensino -- baseado na chamada Ratio studiorum -- que ia desde a difusão do catecismo entre as crianças e "pessoas rudes", até a criação de seminários, como o Colégio Romano (1551), posterior Universidade Gregoriana; assistia aos humildes, encarcerados e soldados. Desde o começo, a ordem se dedicou a missões entre os infiéis e deu santos à Igreja, como Francisco Xavier, missionário na Índia e Japão e morto ao entrar na China, e Pedro Clavel, que se proclamou escravo dos escravos negros desembarcados em Cartagena, na Colômbia.
A ordem está organizada em províncias, espalhadas por todo o mundo, governadas por um provincial e agrupadas em assistências. O poder supremo dentro da ordem compete à congregação geral, formada pelos provinciais e delegados eleitos, por períodos determinados, por cada congregação provincial. A congregação geral elege um superior que, embora vitalício, pode ser deposto pelo papa, por decisão própria ou por sugestão da congregação geral. As constituições feitas por santo Inácio só podem ser modificadas com a aprovação do papa.
Padre Manoel da Nóbrega
Jesuítas no Brasil. Em 1549 chegaram ao Brasil os primeiros missionários da Companhia de Jesus. O primeiro grupo tinha como superior o padre Manuel da Nóbrega e foi integrado pelos padres João Navarro, Antônio Pires, Leonardo Nunes e os irmãos Vicente Rodrigues e Diogo Jácome. Colaboraram com Tomé de Sousa na fundação da cidade de Salvador e criaram o colégio da Bahia. Em seguida estenderam a assistência religiosa às capitanias de Ilhéus, Porto Seguro, Espírito Santo e São Vicente, para o sul, e às de Sergipe del Rei, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Em 1553, foi criada a província jesuítica do Brasil. Nesse mesmo ano, chegava ao Brasil, ainda como estudante, o padre José de Anchieta, cognominado o Apóstolo do Brasil.
Até 1605, vieram para o Brasil, em 28 levas ou expedições, 169 religiosos da Companhia de Jesus, entre padres e irmãos. Não se incluem nesse total os quarenta religiosos da expedição de 1570, chefiada pelo padre Inácio de Azevedo, aprisionados em alto- mar pelos homens de Jacques Soria e assassinados ou atirados à água; nem os 12 jesuítas da expedição chefiada pelo padre Pero Dias, que em 1571 morreram nas mãos de Jean Capdeville e seus corsários franceses e ingleses.
Representava grande esforço para a recém-criada Companhia de Jesus o envio para o Brasil desse grande número de estudantes e sacerdotes, entre os quais se incluíam não apenas portugueses e espanhóis, em larga maioria, mas também belgas e italianos. Daí a determinação do padre Manuel da Nóbrega de instalar o noviciado no Brasil, logo no início, aproveitando a vocação para o sacerdócio dos próprios filhos da terra. Em poucos anos os resultados obtidos provariam o acerto de sua decisão.
Em 1605, os jesuítas já estavam estabelecidos em todo o litoral brasileiro, de Natal (1597), no Nordeste, a Embitiba (1605), na atual divisa entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Nesse período de expansão, além de contribuírem para a edificação das cidades de Salvador e Rio de Janeiro, fundaram por iniciativa própria a cidade de São Paulo, em Piratininga, no interior da capitania de São Vicente.
Com as bases que lançaram no século XVI, os jesuítas conquistaram o mérito de introduzir o ensino, inclusive das artes e ofícios necessários à vida cotidiana, como medicina e arquitetura; de promover o teatro; de preservar as línguas indígenas; e de registrar os fatos importantes da história de seu tempo.
No plano econômico, marcaram presença pela criação de gado e animais domésticos, como ovelhas, porcos, galinhas, patos e cães, tendo esses últimos causado grande fascínio entre os indígenas. Com o gado iniciaram a indústria de laticínios. Introduziram também no país numerosas espécies vegetais européias e asiáticas, e plantaram, em suas residências, uvas, cidras, limões, figos, cacau, legumes, algodão e trigo, ao mesmo tempo em que procuravam iniciar os indígenas em novas técnicas agrícolas. Das frutas faziam conservas. Iniciaram também o cultivo da cana-de-açúcar.
Repressão. Na Europa, no século XVII, muitos reis tomaram jesuítas como confessores (Luís XIV da França, Mariana da Áustria -- esposa de Filipe IV de Espanha -- João IV de Portugal, Augusto II da Polônia). Os ataques dirigidos contra eles por pensadores como o francês Blaise Pascal, representante das idéias jansenistas, eram voltados contra o pragmatismo moral e as atividades políticas da companhia. Nas missões, os jesuítas Roberto Nobili e Mateo Ricci iniciaram uma revolucionária adaptação aos costumes dos brâmanes hindus e dos mandarins chineses, o que suscitou grandes controvérsias. No Paraguai, a ordem criou as chamadas reduções, um tipo de organizações política e social que agrupava os indígenas, sob a direção dos padres.
As idéias dos enciclopedistas e os governos europeus do século XVIII, com seu espírito anticlerical e contrário à intervenção do papado em assuntos políticos, investiram especialmente contra os jesuítas, que foram expulsos de Portugal, França e Espanha, e no Paraguai tiveram que abandonar as reduções dos índios. Por decreto de 3 de setembro de 1759, o marquês de Pombal, poderoso primeiro-ministro de D. José I, expulsou os jesuítas de Portugal e de seus domínios ultramarinos, inclusive o Brasil. No ano seguinte, mais de 600 sacerdotes fecharam seus colégios e abandonaram as aldeias indígenas brasileiras. Os numerosos bens da Companhia de Jesus foram confiscados e incorporados à coroa por cartas régias de 25 de fevereiro e 5 de março de 1761. Na Espanha, Carlos III decretou em 1767 a expulsão dos jesuítas de todo o seu reino.
A pressão das monarquias obrigou o papa Clemente XIV a decretar em 1773 a supressão da Companhia de Jesus, mediante o breve Dominus ac Redemptor. No entanto, os jesuítas continuaram na Prússia até 1780 e se mantiveram na Rússia, onde o decreto papal nunca vigorou. Em 1814, o papa Pio VII restabeleceu a Companhia de Jesus, ante a demanda geral para que prosseguisse seu trabalho de ensino e evangelização missionária. Posteriormente, os jesuítas chegaram a ser a ordem religiosa masculina mais numerosa. Ao Brasil, os jesuítas voltaram em 1841, quando era geral da Companhia de Jesus o padre holandês João Roothaan. Instalaram-se novas casas, abriram-se noviciados e novos colégios.
A atividade variada dos jesuítas alcança atualmente especial relevância na educação, com instituições de ensino médio e superior, destacando-se entre elas a Universidade Gregoriana, em Roma. Sua ação se estende também ao campo das comunicações, bem como aos movimentos ecumênicos e de âmbito social e trabalhista em geral. Atualmente os jesuítas promovem de maneira especial a vida religiosa, com os Exercícios espirituais de santo Inácio, e a promoção da fé e da justiça.

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