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quarta-feira, 19 de março de 2014

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Caparaó: A primeira guerrilha contra a ditadura






Entre Cabras e Ratos
Em 1966 um grupo de 20 militantes instalou na serra do Caparaó a primeira guerrilha contra a ditadura militar

por José Caldas da Costa

Após o golpe de 1964, mais de mil militares foram expulsos do exército, da marinha e da aeronáutica. De praças a oficiais, todos foram acusados de subversão. Obrigados a deixar as Forças Armadas, também não podiam trabalhar em outras profissões. “Treinam o homem como soldado e depois que o imprensam contra a parede, ele reage. Até um rato reagiria, quanto mais um soldado”, resume o sargento do exército Araken Vaz Galvão. Dois anos depois, ele participaria da primeira insurgência armada contra o regime militar, a guerrilha do Caparaó.

A reação ao golpe veio da parte mais fraca da corda: os praças e oficiais subalternos. Os militares expulsos que ousaram continuar lutando tinham uma história de forte envolvimento com os grandes temas nacionais. Entraram nas Forças Armadas em um momento em que o nacionalismo estava em alta e boa parte deles participou da campanha “O Petróleo é Nosso” e da fase de afirmação do país na exploração deste precioso líquido.

Viveram a crise do suicídio de Getúlio Vargas, a tensão da tentativa de derrubada de Juscelino Kubitschek e estavam na Campanha da Legalidade (ver Glossário) levantada pelo governador do Rio Grande do Sul Leonel Brizola. O marechal Henrique Lott, então ministro da Guerra, criara uma política de promoção para incentivar os estudos e muitos sargentos aproveitaram bem a oportunidade.

Inicialmente, lutaram por melhorias das condições de trabalho, o que os levou à fundação do Movimento dos Sargentos sob o lema “Sargento também é povo fardado”. Aproximaram-se dos ferroviários, categoria mais organizada entre os trabalhadores do Rio de Janeiro, e das entidades estudantis. Conseguiram aumentar sua participação política, iniciando os anos 60 com uma nova legislação eleitoral que permitia a candidatura de sargentos a mandatos eletivos.
Em cada uma das três forças – exército, marinha e aeronáutica – as organizações de sargentos estavam fortalecidas. Logo os marinheiros também criaram sua associação. Cada grupo desses pretendia melhorar suas condições de vida. Os marinheiros, por exemplo, lutavam por direitos básicos, como casamento, tratamento humanizado, uso de trajes civis etc.

A corrente de oficiais de direita, insensível a essas reivindicações, interpretava-as como infrações disciplinares. O discurso de combate ao comunismo crescia nos setores mais conservadores da sociedade e dos militares, criando uma aliança perfeita para um golpe, sob patrocínio dos Estados Unidos, então preocupados com o crescimento da influência cubana na América Latina.

Quando o general Mourão Filho partiu com uma pequena tropa de Juiz de Fora (MG) rumo ao Rio de Janeiro, precipitando o golpe, a direita militar não estava devidamente mobilizada, mas a indecisão do governo para reagir à insubordinação facilitou a tarefa dos insurgidos. João Goulart deposto, logo o marechal Humberto de Alencar Castelo Branco estaria na cadeira de presidente.
Seguiram-se prisões, expulsões, torturas e morte dos que se posicionavam contra os novos interesses. As primeiras vítimas do regime militar foram os sargentos e os marinheiros. Bastava não concordar com a solução imposta pelo golpe para ser considerado comunista e inimigo do povo.

Sob a liderança de Amadeu Felipe da Luz Ferreira, os sargentos estavam convencidos de que não havia outra maneira de resistir a não ser através da guerra de guerrilhas, adotando princípios do francês Régis Debray – princípios que ele depois rejeitaria. O cenário internacional contribuiu muito para essa avaliação: naquele momento, o revolucionário Ernesto Che Guevara pregava a reação à crescente intervenção americana na América Latina com a criação de “milhares de Vietnãs”. Ou seja, focos guerrilheiros capazes de desestabilizar qualquer regime. Enquanto os sargentos reagrupavam-se clandestinamente, os jovens da organização Polop (Política Operária) também planejavam enfrentar o regime pela luta armada. Escolheram o vale do rio Doce, onde pensavam ser possível atingir em cheio a Estrada de Ferro Vitória–Minas. Chegaram a visitar a serra do Caparaó, fazendo estudos para uma ação futura, mas a tentativa foi abortada ainda na fase de planejamento, com a prisão de seus líderes em um apartamento em Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro.



Na organização da resistência, os militares expulsos decidiram buscar apoio no Uruguai, onde Leonel Brizola e o ex-presidente João Goulart estavam exilados. Os sargentos aproximaram-se de Brizola durante a Campanha da Legalidade e queriam tirar proveito dessa amizade.
Criaram o Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), mas o líder gaúcho não tinha a menor simpatia pela guerrilha e acreditava mais no controle que teria sobre as Brigadas Militares do Rio Grande do Sul. Por duas vezes, os sargentos tentaram realizar levantes no estado e fracassaram. Cobraram de Brizola o cumprimento da promessa de apoiá-los na incursão foquista caso o levante não desse certo.
Após uma tentativa abortada de instalar-se na serra do Mar, em Santa Catarina, o grupo partiu para a serra do Caparaó, entre o Espírito Santo e Minas Gerais. Uma engenhosa operação transportou as armas do sul até o sudeste por ônibus, trem e até em uma Kombi da Kellog’s. Os guerrilheiros foram chegando em pequenos grupos ou individualmente, a partir de meados de junho ou julho de 1966, e instalaram-se em uma propriedade da família do sargento pára-quedista Anivanir Martins Leite, em São João do Príncipe, Iúna (ES). Simulariam uma criação de cabras. Quando começaram as operações de reconhecimento da região, os guerrilheiros foram surpreendidos com a notícia da morte, sob tortura, de um de seus antigos líderes, o sargento Manoel Raimundo Soares. Ele havia sido preso em março, em Porto Alegre, logo após a segunda tentativa frustrada de levante, e foi assassinado com as mãos amarradas em agosto de 1966, nas águas do rio Jacuí, que deságua no lago Guaíba.


A direção em Caparaó era oriunda do exército: o sargento Amadeu Felipe da Luz Ferreira no comando militar, tendo como subcomandantes o sargento Araken Vaz Galvão e o subtenente Jelcy Rodrigues.

Um dos primeiros a chegar foi um civil, o gaúcho Milton Soares de Castro. Integraram-se Avelino Capitani, Edival Mello e Amaranto Jorge Rodrigues, todos da marinha e treinados em Cuba. Estavam ainda no grupo o sargento da Aeronáutica Josué Cerejo Gonçalves, o sargento marinheiro Jorge José Silva, o marinheiro João Jerônimo da Silva e o sargento do exército Daltro Jacques Dornellas, além de três pessoas da família dele: o também sargento Dirceu Dornellas, que dava retaguarda na cidade, seu pai Afonso e seu irmão mais novo, Luiz Carlos, que operaram um armazém de apoio em Guaçuí (ES). Dário Viana Reis, primeiro-tenente do exército, emprestou a propriedade onde foram escondidas as armas no Rio Grande do Sul, antes de serem conduzidas ao Caparaó. O capitão Juarez Alberto de Souza Moreira ajudou a escolher a região e abastecia a guerrilha com alimentos transportados num jipe com placas de Nilópolis (RJ).

O comando urbano era do presidente do proscrito PSB, professor Bayard Demaria Boiteux, que recrutou como colaborador direto o estudante de direito Amadeu Rocha. Eles eram responsáveis pela ligação com o Uruguai, onde tinham o apoio de Paulo Schilling junto a Brizola.Mais tarde, ligou-se a este comando o ex-bancário Hermes Machado Neto, que também foi preparado pelo regime cubano. Ele esteve na serra como observador de Amadeu Rocha.
Nas primeiras semanas, o grupo era maior, com o civil Gregório Mendonça, o professor Alfredo Néri Paiva, treinado em Cuba, o subtenente Itamar Maximiano Gomes e os sargentos José Carlos Bertoncellos e Pedro Espinosa. Alguns desistiram logo, ao perceber como era dura a tarefa de empreender uma guerrilha. O sargento Deodato Fabrício Batista participou do movimento ainda na ativa. Pouco a pouco, os guerrilheiros fizeram incursões de reconhecimento da serra e fixaram depósitos de comida e armamentos em pontos estratégicos. Precisavam prevenir-se para as ações, que chegaram a ser planejadas para a cidade mineira de Presidente Soares – hoje Alto Jequitibá –, mas não foram executadas.

Esta primeira fase visava à adaptação. Pretendiam, em seguida, atuar para chamar a atenção do país para o fato de haver uma insurreição contra o regime. De acordo com a teoria do foco guerrilheiro, a partir daí outros grupos se levantariam e, em pouco tempo, os militares teriam de ceder ao clamor da nação por liberdade.


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