" História, o melhor alimento para quem tem fome de conhecimento" PPDias

sábado, 26 de junho de 2010

A criação do Prêmio Nobel

Você já ouviu falar do Prêmio Nobel? Ele é atribuído todos os anos a personalidades internacionais que, por seu trabalho, se destacaram na esfera das Ciências, da Literatura e do esforço pela paz mundial.
a história desse prêmio, que começou em 1901, está relacionada a um erro jornalístico. Alguns anos antes, ainda na década de 1890, um jornal europeu publicou por engano a notícia do falecimento do industrial sueco Alfred Nobel. Por ter inventado a dinamite, em 1866, Nobel foi chamado no obituário de "mercador da morte".
Antibelicista, o industrial decidiu deixar ao mundo um legado de paz. Assim, doou em testamento 94 por cento de sua fortuna para a criação de um prêmio anual a ser concedido às pessoas cujo trabalho trouxesse importantes benefícios à humanidade.
Morto em 1896, cinco anos depois o Prêmio Nobel começou a ser concedido às personalidades que destacaram nos campos da Física, da Química, da Medicina, da Literatura e da luta pela paz mundial. A partir de 1969, o prêmio passou a ser concedido também a trabalhos na área de Economia. 

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O perigo dos estereótipos

A representação de personagens e fatos históricos via imagens muitas vezes, em vez de informar corretamente, elege e perpetua fantasias.
por Johnni Langer
A história não é feita unicamente de documentos escritos. Está gravada em imagens, que são muito mais poderosas no imaginário que a escrita, pois permitem que a perpetuação das fantasias ocorra facilmente. Em livros didáticos, no cinema, nos quadrinhos, muitos fatos são interpretados por meio de uma representação visual.

Quanto maior a distância do fato ocorrido ou dos registradores serem de culturas e períodos diferentes, maior a ocorrência de equívocos.

Existem vários tipos de estereótipos. Alguns são detratores, geralmente descritos para etnias exóticas, outros são utilizados como estimuladores de ideais nacionalistas. O primeiro caso pode ser exemplificado com Heródoto (V a.C.), ao descrever a prática dos citas de beberem nos crânios de seus inimigos. Era uma fantasia, com o intento de enaltecer os gregos, contrastando-os com a barbárie dos "primitivos". O mesmo estereótipo foi renovado pelo cristianismo, com Jordanes descrevendo os hunos (VI d.C.) e cronistas da Baixa Idade Média caracterizando os vikings (XIV d.C.). Culturas e escritores diferentes, mas a mesma imagem fantasiosa: a figura do outro porta características bestiais, no caso, o suposto ato de utilizar os crânios como taças. Imaginar esses três povos citados como animalescos era algo normal para os parâmetros daqueles intelectuais.

O uso político das imagens históricas também produziu muitos estereótipos, alguns sem conotação detratora. A moda do celtismo, a partir do século XVIII, almejava recuperar as raízes das nações européias, e os escolhidos foram os celtas.
Megálitos do Velho Continente, como Stonehenge e Karnak, foram considerados erigidos pelos sacerdotes dos celtas, os druidas. Um erro corrigido depois pela arqueologia. Os próprios druidas foram representados como senhores de longas barbas e cabelos brancos, de ares serenos e bondade infinita. Mesmo que as fontes clássicas apresentassem outras imagens deles, os pintores românticos trataram de consolidar esse modelo que ainda hoje impera soberano. Tanto no cinema, como nos quadrinhos, os druidas permanecem falsamente representados, e Stonehenge ainda impera no imaginário como reduto druídico. Do mesmo modo, durante o Oitocentos, guerreiros celtas ganharam asas em seus elmos, algo que se perpetua com o personagem Asterix.

Outro estereótipo utilizado com fins glorificadores foi o dos vikings representados com chifres nos capacetes. A Alemanha, os países da Escandinávia e a Inglaterra durante o século XIX empregaram esta imagem equivocada como suporte de um passado considerado heróico, ao mesmo tempo que garantiam identidade social aos membros das suas comunidades. Nessa época, assim como na Antigüidade, chifres masculinos eram símbolos de poder, marcialidade, vigor e disciplina.

No Brasil, também temos casos de imagens históricas sem base na realidade: indígenas representados como heróis medievais pela literatura, música e artes plásticas do Segundo Império ou da figura de
 Tiradentes semelhante a Cristo (ele morreu careca e imberbe) realizada pelos pintores no início da República. A iconografia atrelada a valores heróicos ainda é algo constante.

Apesar de ser complicada a desconstrução de estereótipos históricos, o caminho mais viável é a ampla utilização de imagens resultantes de pesquisas historiográficas modernas, nos mesmos veículos em que as fantasias prosperam. Nem sempre aquilo que se vê sobre a história ocorreu, mas com certeza as imagens também são produtos históricos. Devem ser entendidas e investigadas.

Aprenda brincando

Quizz educativo sobre a chegada da Família Real no Brasil

domingo, 20 de junho de 2010

Grandes idéias em grandes crises

A dor ensina a gemer

Crises e guerras devastaram exércitos e mergulharam impérios na recessão e no caos. Mas também serviram de estímulo para inventos que mudaram a história da humanidade

por Bianca Nunes
Louis Braille (1809-1852) tinha só 3 anos quando, brincando na oficina do pai artesão, cortou o olho direito com um furador de couro. A família tratou o machucado em casa - eles moravam num pequeno vilarejo da França de 1812. Logo o ferimento infeccionou e passou para o outro olho. Dois anos mais tarde, Louis estava completamente cego.

A deficiência não impediu que ele fosse educado. Tão logo aprendeu a ler com o tato, Louis foi enviado a uma escola para cegos de Paris - a primeira do tipo na época. Aluno dedicado, impressionou-se quando, em uma das aulas, aprendeu um código sem som criado no Exército para comunicação de soldados durante a noite. Louis gostou da ideia e incrementou o código, que tinha pontos em alto relevo. Até então, quase tudo na escola era feito por memorização.

Aos 15 anos, ele criou um sistema que é usado até hoje por cegos de qualquer país para se comunicarem com o mundo. A invenção que levou seu nome veio de uma necessidade pessoal de Louis: ele queria aprender de uma forma simples. A angústia e a dedicação fizeram com que o jovem descobrisse um jeito de melhorar sua própria vida e a dos deficientes que viviam como ele, no escuro.

Muitas outras descobertas também ocorreram durante crises, em momentos sofridos e cruciais para seus inventores, quando o mundo exigia deles uma saída. Às vezes para sua própria sobrevivência e conforto.

"A crise provoca a mudança, que pode ser ‘boa’ ou ‘má’ para a humanidade. Algumas pessoas se adaptam aos momentos difíceis ou têm habilidades específicas que ajudam a fazer da crise algo positivo. Em muitas ocasiões críticas, como a situação econômica atual, há oportunidades que podem beneficiar alguns", afirma Lisa Rosner, professora de história da ciência da Universidade de Stockton (EUA), pesquisarora e autora de The Technological Fix: How People Use Technology to Create and Solve Problems ("O Conserto Tecnológico: Como as Pessoas Usam a Tecnologia para Criar e Resolver Problemas", sem tradução para o português).

Quem dá outro exemplo de superação em tempos de turbulência é Edward Tenner, especialista em história da tecnologia. "Com certeza, a Dinamarca, após perder a Noruega, a Islândia e a região de Schleswig-Holstein, se tornou mais próspera do que nunca. Criou novas indústrias que incluíam a produção de manteiga e queijo, móveis de madeira e turbinas eólicas. Eles passaram de uma cultura hierárquica, que vivia como satélite da aristocracia do norte da Alemanha, para uma sociedade que era capaz de exportar produtos de maneira igualitária e atingiu níveis de vida ótimos. Hoje, os dinamarqueses são, de acordo com pesquisas, as pessoas mais felizes da Europa - em um paradoxal resultado por terem perdido muitas guerras."

Mas por que isso acontece? Como momentos dramáticos podem despertar soluções inovadoras? Historiadores chegaram a algumas conclusões estudando esse comportamento. Primeiro: "ideias brilhantes" não surgem do nada. Segundo Lisa Rosner, "elas acontecem porque os inventores entendem a necessidade que passam e pesquisam sobre o assunto. Eles têm acesso às soluções propostas por outros e eles tentam muito".

Traumas criativos e invenções
Necessidades que levaram a grandes soluções

Feridas abertas
Assombrado pelas cenas terríveis que testemunhou como voluntário num centro médico do Exército britânico durante a Primeira Guerra Mundial, o pesquisador Alexander Fleming (1881-1955) procurou outras formas de tratar ferimentos infeccionados. Até então, não era possível curar as feridas mais graves sem remover pelo menos parte do tecido atingido das vítimas. Ao ver de perto o sofrimento dos doentes, se dispôs a buscar um tratamento eficaz. Descobriu a penicilina, o primeiro antibiótico, em 1928.

Sangue no armário
A falta de sangue para transfusões durante a Segunda Guerra levou o médico americano Charles Drew a encontrar um modo de transportar o material por longas distâncias sem que se estragasse. Ele separou o sangue entre plasma (a parte líquida) e células vermelhas, o que permitia o armazenamento prolongado. No início dos anos 1940, a Inglaterra pediu ajuda aos EUA para atender vítimas civis e militares. Drew coordenou um projeto da Cruz Vermelha para coletar e enviar o sangue salvador à Grã-Bretanha.

Na falta de cão acaba o sabão
A base dos detergentes sintéticos apareceu na Alemanha, em 1917, quando os suprimentos de gordura animal estavam em falta por causa das batalhas da Primeira Guerra Mundial. A gordura era, então, a principal matéria-prima do sabão. Chamado de Nekal, o produto desenvolvido pelos químicos H. Gunther e M. Hetzer, a partir de uma ideia original do fim do século 19, só circulou nos tempos de guerra, mas foi um sucesso comercial. Aprimorado, está hoje em todas as cozinhas. E os cães agora podem perambular tranquilos.

A imprensa e a peste negra
Há quem diga que a peste negra, no fim da Idade Média, ajudou no desenvolvimento do Ocidente. Os historiadores David Herlihy e Samuel Cohn argumentam que a pandemia que dizimou quase um terço da Europa deu início a uma onda de descobertas tecnológicas que levaram à Revolução Industrial. Um dos exemplos citados é a invenção da prensa de Gutenberg, em 1453. Eles sugerem que os tipos móveis vieram a substituir o exército de monges copistas que teriam sido mais rapidamente atingidos pela peste do que o resto da população.

O rádio é do povo
As primeiras transmissões de rádio são do século 19, mas só depois da Primeira Guerra a radiodifusão chegou, de fato, à população civil. A Westinghouse, empresa americana que fabricava aparelhos para as tropas europeias, se viu com um excedente encalhado. A fim de evitar o prejuízo, a empresa instalou uma grande antena no pátio da fábrica e transmitiu música para os moradores de um bairro de Pittsburgh. O golpe de marketing funcionou e os aparelhos foram vendidos.

Blues para amenizar a dor
O blues nasceu no Mississippi (EUA), no delta do rio Yazoo, uma região de inundações, própria para a plantação de algodão. Lá viviam escravos negros, que cantavam para aliviar o sofrimento do trabalho. Eram lamentos em forma de gritos melancólicos. Como os escravos eram proibidos de usar instrumentos, a voz era o único recurso musical. Depois veio o ritmo sincopado, a marcação nos pés, o falsete nos vocais e, claro, a marcação típica do violão. O primeiro blues - gíria da época para definir a tristeza - foi gravado em 1914.

A explosão dos Fertilizantes
O uso de substâncias para adubar o solo data dos primórdios da agricultura. Os fazendeiros da Antiguidade sabiam que a terra envelhecia. Em vez de buscar novas áreas de cultivo, eles passaram a incrementar o terreno. Os egípcios espalhavam cinzas de sementes, e há relatos de que gregos e romanos fertilizavam a terra com excremento animal. A indústria de fertilizantes sintéticos surgiu depois da Primeira Guerra, para dar fim ao excedente de explosivos de nitrogênio (TNT) que já não tinham serventia.

Mais forte que a seda
Devido às dificuldades no comércio mundial depois da quebra da bolsa de valores, em 1929, o preço da seda disparou. O Japão era, naquele momento, o principal exportador para os Estados Unidos e um dos maiores fabricantes mundiais do produto. Em busca de um tecido leve, resistente e mais barato, a empresa DuPont decidiu investir no desenvolvimento de uma fibra sintética que substituísse a seda. Foi assim que o funcionário Wallace Carothers produziu uma fibra forte e elástica que não derrete a menos de 195 graus Celsius. Criado em 1930, o náilon não é só usado para fazer roupas. Serve para fabricar linhas de pesca, tapetes e carpetes, entre outras utilidades.
Sem gasolina? Vai de álcool
Crise do petróleo abriu espaço para outros combustíveis

Em 1973, a decisão de alguns países de diminuir a produção de petróleo e aumentar seu preço foi catastrófica para o resto do mundo. Não havia alternativa viável, e as pesquisas sobre outros tipos de combustíveis estavam engatinhando. Em apenas três meses, o preço de um barril passou de US$ 2,90 para impressionantes US$ 11,65 e as vendas para a Europa e os EUA foram embargadas por causa do apoio a Israel na Guerra do Yom Kippur (1973). A oferta do produto despencou e alguma coisa precisava ser feita.

O Brasil inovou. Em 14 de novembro de 1975, o governo assinou um decreto implantando o Programa Nacional do Álcool, o Proálcool, que estimulava a produção do etanol para a substituição de combustíveis fósseis. "O Proálcool foi implantado quando o Brasil gastava, anualmente, mais de US$ 10 bilhões na importação de petróleo e derivados. Foi a única nação que encontrou um substituto adequado e menos poluente para o petróleo", diz Luiz Gonzaga Bertelli, autor de Crise Energética.

Segundo ele, hoje, o volume do etanol de cana comercializado já é superior ao da gasolina automotiva. "O programa colaborou, decisivamente, para o desenvolvimento sustentável do Brasil. Mais de 1 milhão de empregos diretos e 4 milhões de indiretos dependem da indústria sucroalcooleira. Se considerarmos todo o petróleo e a gasolina que deixamos de queimar desde 1977, quando ocorreu o início da efetiva produção do etanol no país, economizamos US$ 234 bilhões em valores atualizados."

Saiba mais

LIVROS
The Technological Fix: How People Use Technology to Create and Solve Problems, Lisa Rosner, Routledge, 2004
Ensaios sobre a necessidade de o homem recorrer à tecnologia para enfrentar desafios.

A Vingança da Tecnologia, Edward Tenner. Campus, 1997
As irônicas consequências das inovações mecânicas, químicas, biológicas e médicas.

Fonte: Aventuras na História

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Termos históricos: Imperialismo ou Neocolonialismo

Fenômeno típico do século XIX, o Imperialismo ou Neocolonialismo demarcou o processo de expansão do capitalismo industrial pela Europa. Nesse período, as nações europeias precisavam de um volume cada vez maior de matéria-prima e buscavam a conquista de novos mercados consumidores que pudessem reverter a produção industrial destes países em lucro. Com isso, regiões dos continentes africano e asiático começaram a ser o principal alvo dessa demanda das nações industrializadas.




Diferente da colonização desenvolvida na Idade Moderna, os neocolonialistas não tinham a obtenção de gêneros tropicais e metais preciosos entre seus maiores interesses. Os neocolonialistas pretendiam transformar a população local em um mercado consumidor regular de seus produtos e fornecedor de matérias-primas que estivessem ligadas à expansão dos maiores setores industriais e o desenvolvimento de novas tecnologias que reduzissem os custos de produção.




Outra diferença que pode ser destacada na era neocolonial gira em torno do papel assumido pelos Estados Nacionais imperialistas. No período moderno, os Estados Nacionais agiam nos espaços coloniais com o objetivo claro de expandir as suas riquezas. Já na fase imperialista, estes Estados promoviam o controle político das regiões colonizadas para que as grandes empresas da nação pudessem conduzir e lucrar com a exploração econômica das riquezas disponíveis. Para que esse projeto fosse viável, devemos levar em conta que o crescimento da população europeia teve um importante papel. O crescimento demográfico estimulava os europeus a se mudarem para estas regiões afro-asiáticas em busca de oportunidades econômicas. O excedente das grandes metrópoles do Velho Mundo acabava arcando com os impostos e a manutenção de contingentes militares que garantiam a dominação dos locais colonizados.

Mesmo tendo várias justificativas de cunho econômico, a ação imperialista também obteve suporte na obra de intelectuais que defendiam a presença europeia nessas localidades. Os ideólogos do neocolonialismo diziam que os europeus deveriam ocupar a Ásia e a África para que levassem consigo os hábitos, aparelhos e instituições que “melhorassem” a condição de vida daqueles povos muitas vezes taxados como “primitivos”, “selvagens” ou “atrasados”.




Apesar da presença desse discurso altruísta, a ação imperialista também veio acompanhada por violentos conflitos entre os nativos e os povos dominadores. No contexto europeu, também devemos destacar que a disputa por essas áreas produziram conflitos políticos e uma opulenta corrida armamentista entre as grandes potências. Por fim, o interesse desenfreado pelas regiões neocoloniais acabou motivando as duas terríveis grandes guerras mundiais que marcam o século XX.


Lenin delineou cinco características fundamentais do Imperialismo:
  • a concentração da produção e do capital foi levada a um grau tão grande de desenvolvimento que criou os monopólios, os quais desempenham papel decisivo na vida econômica;
  • fusão do capital monopolista industrial com o capital bancário e o aparecimento do capital financeiro e da oligarquia financeira;
  • a exportação de capitais, ao contrário da exportação de mercadorias, adquire importância particularmente grande;
  • formação das associações monopolistas internacionais que partilham economicamente o mundo entre si (Trustes, Cárteis e Holdings);
  • a partilha territorial do mundo entre as potências capitalistas mais importantes. 

Imperialismo na Ásia

Antes do século XIX, as relações entre a Ásia e o mundo ocidental se resumiam ao contato estabelecido entre as cidades portuárias e as embarcações comerciais europeias. Algumas poucas experiências coloniais se desenvolviam nas regiões do Macau (China), Damão, Goa e Diu (Índia), e Timor (Indonésia), todas elas controladas pelos portugueses. Além disso, os espanhóis exploravam as Filipinas e os holandeses se fixaram nas regiões de Java e Sumatra.



Na segunda metade do século XVIII, com a criação da Companhia das Índias Orientais, os ingleses passaram a realizar a progressiva conquista da Índia. Nesse processo, entraram em luta contra a presença dos franceses na região subcontinental e impuseram sua força contra os príncipes locais. Até a primeira metade do XIX, os ingleses já realizavam a cobrança de impostos, praticavam o comércio e vigiavam a população local com o uso de tropas nativas, conhecidos como cipaios.



A ação inglesa também se estendeu até a China, quando os britânicos descobriram que poderiam explorar a comercialização do ópio como droga entorpecente. Inconformado com os prejuízos causados à saúde da população, o governo chinês estabeleceu a proibição do comércio da droga e uma severa política contra qualquer tentativa de contrabando do mesmo produto. Logicamente, os britânicos sentiram-se intensamente prejudicados com a medida.



A diferença de interesse acabou resultando nas chamadas Guerras do Ópio, que se desenvolveram entre 1839 e 1842, e 1856 até 1860. Por meio da vitória, os ingleses impuseram uma série de tratados que garantiam e ampliavam interesses políticos e econômicos na região. Vários portos comerciais chineses foram abertos aos países europeus, a comercialização do ópio liberada e a ação dos missionários cristãos reconhecida.



Outras potências como Rússia, Estados Unidos, França, Alemanha e Japão também utilizaram de sua influência e capacidade militar para impor seus interesses no território chinês. Entre 1900 e 1901, chineses descontentes com a dominação estrangeira organizaram uma série de levantes e atentados. Conhecida como a Guerra dos Boxers, esse evento foi severamente combatido por uma colisão de forças imperialistas japonesas, europeias e norte-americanas.



Com a derrota para os britânicos na Índia, os franceses empreenderam seu projeto de dominação em outras regiões do continente asiático. Entre as décadas de 1850 e 1860, conquistou a Península da Indochina, correspondente ao sul do atual Vietnã. Logo em seguida, ampliou sua presença com a anexação do Camboja, Laos e todo o restante do território vietnamita. Por meio dessas conquistas, os franceses ampliaram seus mercados e dinamizaram o comércio de tecidos junto aos chineses.



Os Estados Unidos e a Alemanha empreenderam sua ação na Ásia através da conquista de várias ilhas espalhadas pelo Oceano Pacífico. Até o início da Primeira Guerra Mundial, mais de 60% das terras e povos de todo o planeta estavam sob o controle das grandes potências ocidentais. Dentro desse universo de valores, quase toda a Oceania e cinquenta e seis por cento da Ásia pertencia à outra nação.

Fonte: www.mundoeducacao.com.br

Guerra dos Boxers (1899 -1900) - Resistências ao Imperialismo

A Guerra dos Boxers foi um conflito ocorrido na China entre os anos de 1899 e 1900, onde um violento grupo nacionalista lutava contra a presença dos estrangeiros em seu território. Inconformados com a inapetência do poder imperial em conter a intervenção imperialista no país, um grupo de lutadores da China desenvolveu uma sociedade secreta, conhecida como “A Sociedade dos Punhos Harmoniosos e Justiceiros”, para lutar contra os imperialistas.
Com o apoio velado das autoridades locais, os boxers empreenderam as suas primeiras ações realizando pequenos atos de vandalismo ao cortar linhas telegráficas, destruir ferrovias e perseguir os missionários cristãos. Em suma, apesar de uma organização incipiente, os participantes dessa revolta atacavam tudo aquilo que poderia representar a dominação dos ocidentais em seu país. Paulatinamente, o triunfo das primeiras ações impeliu o planejamento de ataques com maior gravidade.
O crescimento da situação hostil obrigou as nações imperialistas a organizarem um exército que desarticularia as ações violentas organizadas pelos boxers. Alemanha, Estados Unidos, Inglaterra, França, Japão, Itália e Rússia cederam soldados para tomar a cidade de Pequim, o principal foco dos conflitos. A invasão estrangeira – ocorrida no final de maio de 1900 – foi logo respondida com um novo ataque dos boxers à pista de corrida dos estrangeiros e o isolamento do bairro das Embaixadas.
Enquanto os civis estrangeiros e os cristãos tentavam se refugiar da onda de ataques, os vários representantes políticos da autoridade estrangeira resistiam à espera de uma forte reprimenda contra os chineses. Entre os meses de julho e agosto, as tropas estrangeiras lutaram contra os boxers e os membros do exército imperial que apoiavam o levante. Percebendo o recuo dos chineses, as nações imperialistas fizeram uma série de exigências em troca da preservação dos territórios.
No dia 7 de setembro de 1901, a Paz ou Protocolo de Pequim oficializou os acordos que puseram fim à Guerra dos Boxers. Derrotado, o governo chinês se viu obrigado a pagar uma pesada indenização em ouro e liberar novos portos às embarcações estrangeiras. Além disso, os imperialistas impuseram a sua autoridade na capital do país e proibiram os chineses de importarem armamentos. Nas décadas seguintes, apesar do fracasso, outros levantes determinaram o fim da dominação estrangeira na China.

Guerra do Ópio (1839-1842)


Portadora de uma imensa população, a China do século XIX foi um dos mais importantes alvos das nações industrializadas desta época. Interessadas em lucrar indiscriminadamente, as chamadas nações imperialistas exploravam todo e qualquer tipo de mercadoria que pudesse trazer bons rendimentos. Dessa forma, o vasto mercado consumidor chinês se transformou em alvo da comercialização do ópio.
O ópio, até meados do século XVIII, era utilizado tradicionalmente pelos chineses com finalidades estritamente medicinais. Entretanto, possuindo grandes lavouras do produto na Índia, os ingleses passaram a disseminar a utilização massiva desse subproduto da papoula como droga anestésica. Em pouco tempo, a sistemática venda da mercadoria impôs uma série de problemas de ordem econômica e social para os chineses.
No ano de 1796, o governo chinês tentou combater o consumo de ópio no país através de um decreto oficial. Contudo, a gigantesca leva de viciados e a indiferença dos imperialistas acabaram mantendo as coisas da mesma forma. O conflito de interesses culminou em ações mais agressivas do governo chinês. Em 1839, na região do Cantão, as autoridades locais apreenderam e lançaram ao mar um carregamento com vinte mil caixas de ópio.
Visivelmente ofendidos, os ingleses exigiram que a China pagasse uma indenização pelos prejuízos materiais e por impedir o livre-comércio na região. Mediante a falta do pagamento, a Inglaterra organizou os navios de guerra e os soldados que participaram da Primeira Guerra do Ópio. Vitoriosos, os britânicos impuseram aos chineses a assinatura do Tratado de Nanquim (1842), que previa a abertura de cinco portos, o fim das fiscalizações, o pagamento de indenização e a entrega da ilha de Hong Kong.
Nos anos de 1856 e 1858, a fiscalização de embarcações britânicas serviu de pretexto para que outras duas Guerras do Ópio acontecessem. Mais uma vez derrotados, os chineses foram impelidos a aceitarem as condições do Tratado de Tientsin, que determinava a legalização definitiva da comercialização do ópio, a abertura de outros dez portos e a livre atuação dos missionários cristãos no país.
A comercialização do ópio na China só foi proibida em 1949, quando a revolução comunista determinou o combate à droga. Já a ilha de Hong Kong só foi devolvida pela Inglaterra no ano de 1997. De fato, as “guerras do ópio” foram determinantes para que, ao longo do século XIX, os britânicos garantissem e alargassem seus interesses políticos e econômicos no interior do território chinês.

Imperialismo na África

Até o século XIX, o litoral do continente africano era a única região em que tínhamos a presença colonial europeia. Em suma, as atividades nessas regiões se resumiam ao lucrativo tráfico negreiro que marcou o desenrolar da economia mercantil. Nesse segundo momento, a presença europeia se deu de forma muito mais enfática e estabeleceu a desarticulação de várias comunidades diferenciadas por suas características culturais e linguísticas.



O primeiro evento de ocupação imperialista ocorreu entre 1830 e 1857, quando os franceses realizaram a conquista da Argélia. Em linhas gerais, essa conquista recuperou o prestígio francês perdido após as guerras napoleônicas e assegurou grandes lucros às empresas do país. Logo em seguida, foi a vez dos franceses se afixarem na Tunísia e afixarem seus domínios na África Ocidental Francesa e na África Equatorial Francesa. Tal domínio também contou com a conquista de Madagascar e Marrocos.



Os britânicos realizaram sua incursão imperialista promovendo a conquista do Egito e a consequente obtenção do Canal de Suez. Do ponto de vista econômico, o Canal de Suez permitia a integração entre os grandes centros industriais europeus e as colônias asiáticas através da ligação entre o mar Mediterrâneo e Vermelho. Logo após o domínio do Egito, o Sudão também foi incorporado como mais uma das parcelas do território imperial da Inglaterra.



A continuidade do projeto imperialista inglês aconteceu com a conquista da Rodésia, Uganda, Zanzibar, Quênia, África Oriental Inglesa, Serra Leoa, Costa do Ouro, Nigéria, Gâmbia. Para controlarem a rica região sul-africana, os britânicos tiveram que entrar em conflito com os colonos de origem holandesa na chamada Guerra dos Bôeres, que ocorreu entre os anos de 1899 e 1902.



No ano de 1876, o rei belga Leopoldo II promoveu a anexação de toda a bacia do Congo, que foi transformada em território de ingerência pessoal. Com tudo, em 1908, o governo da Bélgica decidiu que a possessão seria reintegrada ao Estado, tendo em vista o terrível morticínio provocado pela dominação do monarca. Nas últimas décadas do século XIX, Alemanha e Itália, após a tardia unificação de seus respectivos Estados Nacionais, também avolumaram o imperialismo na África.



Os alemães promoveram a formação da África Oriental Alemã, composta pelos territórios de Ruanda-Burundi e Tangancia. Já na porção ocidental do continente, os germânicos controlaram Camarões, Togo e a atual Namíbia. Os italianos foram responsáveis pelo controle do litoral Líbio, da Eritreia e da Somália. O controle absoluto do “Chifre Africano” só não ocorreu por causa da derrota italiana na batalha de Ádua, vencida por um mal preparado exército etíope.



O desenvolvimento da ação imperialista levou as grandes nações capitalistas a promoverem a Conferência de Berlim (1884 - 1885), organizada pelo estadista Otto Von Bismarck. O principal objetivo do encontro foi definir as regras que determinariam as conquistas imperiais sobre o continente africano. A partir daquele momento, qualquer nova anexação deveria ocorrer a partir do envio de um documento avisando os demais governos imperialistas.



Apesar da inegável supremacia dos europeus, a dominação imperialista foi marcada por várias guerras e 
conflitos entre nativos e colonizadores. Os franceses tiveram de suportar vários levantes ocorridos na Etiópia e os ingleses tiveram de se organizar contra a resistência no Sudão. Os únicos casos de sucesso africano aconteceram nas regiões da Libéria e da Etiópia, que conseguiram evitar a presença imperialista.


Fonte: www.mundoeducacao.com.br


A Guerra dos Bôeres (1899-1902)


Os bôeres eram descendentes de holandeses, que dominavam a região aurífera de Transvaal e Orange, na África. A Inglaterra, com a finalidade de explorar o ouro do sul da África, invadiu a região e impôs, após três anos de guerra, a sua dominação sobre os bôeres.
Com a corrida do ouro na África do Sul, grandes companhias mineradoras ali se instalaram. Ocorreram novos conflitos estimulados pela Inglaterra. a Britsh South Africa Company, funda por Cecil Rhodes, em 1899, teve papel fundamental nas rebeliões. A guerra começou no final de 1899 e durou três anos. Em 1902, foi estabelecida a paz e, no ano de 1903, surgiu a República Sul-Africana.



sábado, 12 de junho de 2010

Termos históricos: Neoliberalismo

Depois que a dissolução da União Soviética selou o insucesso das economias centralizadas, a expressão "neoliberalismo" passou a ser amplamente usada pelos meios de comunicação. Ela não se vincula, porém, a uma ideologia sistematicamente definida, mas é aplicada a posições ou situações de esquerda ou direita, mais progressistas ou mais conservadoras.
Neoliberalismo, em sentido amplo, é a retomada dos valores e ideais do liberalismo político e econômico que nasceu do pensamento iluminista e dos avanços da economia decorrentes da revolução industrial do final do século XVIII, com a adequação necessária à realidade política, social e econômica de cada nação em que se manifesta. Em sentido mais estrito designa, nas democracias capitalistas contemporâneas, as posições pragmáticas e ideologicamente pouco definidas dos defensores da política do "estado mínimo", que deve interferir o menos possível na liberdade individual e nas atividades econômicas da iniciativa privada e, ao mesmo tempo, manter, ampliar e tornar mais racional e eficiente o estado de bem-estar social. Há neoliberalismo de esquerda, de centro e de direita.

Antecedentes. O movimento neoliberal caracterizou-se, num primeiro momento, pela mudança da postura liberal em relação ao papel do estado na vida econômica das democracias capitalistas. Manifestou-se durante a grande depressão da década de 1930, quando defendeu e implantou a intervenção do estado na economia para amenizar os efeitos sociais da crise econômica. Num segundo momento, que coincide com a crise da economia mundial da década de 1970, distinguiu-se pela adoção de critérios de eficiência e de busca de solução de problemas específicos do estado de bem-estar social e de progresso econômico nos moldes do capitalismo contemporâneo. Adquiriu características nacionais específicas nos diversos países em que ocorreu e traduziu as posições dos partidos políticos que adotaram seus postulados.
Assim, em alguns países europeus continentais, foi assimilado por partidos de tendência conservadora e de direita; nos Estados Unidos e no Reino Unido, tornou-se bandeira da política progressista e de intervenção do estado na economia nacional para evitar ou contornar crises econômicas, promoveu mudanças nas relações de trabalho e de produção das economias nacionais, que beneficiaram setores sociais mais desvalidos, e incentivou o papel do estado na atividade empresarial, especialmente em setores em que a iniciativa privada se recusou a atuar, para aumentar a oferta de emprego. Foi denunciado por adversários conservadores como processo de socialização da vida do país pela criação do estado de bem-estar social.
Neoliberais e conservadores. É na verdade tênue o limite que separa neoliberais e conservadores, o que leva muitas vezes a uma identificação apressada das duas tendências. Há, no entanto, uma diferença fundamental: os neoliberais são progressistas, incentivam a mudança útil e defendem a manutenção do estado de bem-estar social, mas percebem a necessidade de reformá-lo para uma eficiência maior de gastos, a ampliação do universo dos beneficiados e a contenção de privilégios conquistados por grupos de interesse de forte presença na sociedade e no governo. Os conservadores, ao contrário, pregam a omissão quase absoluta do estado quanto ao rumo da economia nacional, consideram que cabe à "mão invisível" do mercado a condução das questões econômicas e ao indivíduo a responsabilidade por seu progresso pessoal e buscam restringir não só o universo dos beneficiários do estado de bem-estar mas os próprios limites desse estado.
A confusão mais freqüente entre neoliberais e conservadores se verifica em relação às políticas adotadas ao longo de toda a década de 1980 pelos governos conservadores dos Estados Unidos e do Reino Unido, países em que é mais clara a identificação do neoliberalismo. Na tradição política dos dois países, as idéias liberais são o fundamento da formação do próprio conceito de estado, da democracia e da construção de seus partidos políticos.
Nos Estados Unidos, os dois partidos que dominam o cenário político e se revezam no poder, o Republicano e o Democrata, têm raízes liberais, mas divergem na visão do papel do estado. Para o Partido Democrata, o governo deve atuar na vida social e econômica nacional; para o Republicano, quanto menos governo, melhor.
A primeira atuação do neoliberalismo americano ocorreu num governo democrata, durante a grande depressão da década de 1930, e deu origem ao New Deal de Franklin Roosevelt, que inaugurou a presença do estado como um dos motores da economia nacional, rompeu com a tradição liberal ao intervir na economia e não deixá-la ao sabor da iniciativa privada, e deu origem ao estado de bem-estar.
Os governos democratas ou republicanos que se seguiram mantiveram basicamente a mesma estrutura até a eleição do republicano Ronald Reagan em 1980, que conseguiu reverter a política do governo, apesar da oposição dos neoliberais democratas do Congresso, grupo que se elegeu a partir da crise da economia mundial da década de 1970 e da renúncia do presidente republicano Richard Nixon.
Essa nova geração democrata no Congresso, herdeira do pensamento de John Kennedy, acreditava num novo liberalismo que buscasse solucionar problemas e não simplesmente manter um sistema que apresenta falhas, especialmente no processo que rege a aplicação dos benefícios do estado de bem-estar, deformado pelo excesso de instâncias e organizações burocráticas. Identificaram-se com a classe média, suas necessidades e interesses, e não com a burguesia empresarial dominante no liberalismo conservador e se caracterizaram por uma visão reformista nas questões sociais e na política externa, por idéias libertárias e antimilitaristas. Chegou ao poder executivo com a eleição de Bill Clinton para a presidência em 1992.
Seus grandes adversários são os conservadores do Partido Republicano, que buscam retirar do estado a função de promover o progresso individual dos cidadãos e incentivar, se necessário com o corte de impostos, a presença cada vez maior da iniciativa privada na economia. Esse foi o programa do conservador republicano Ronald Reagan nos oito anos de seus dois mandatos na presidência e de seu sucessor também republicano George Bush.
No Reino Unido, o liberalismo está também na raiz da formação dos partidos Conservador e Trabalhista, embora os trabalhistas tenham se inclinado fortemente para a social-democracia. Para o liberalismo britânico, o estado é sempre um mal necessário e deve ser mantido dentro de limites restritos.
Os trabalhistas britânicos têm pontos em comum com os democratas americanos; os conservadores defendem posições próximas às dos republicanos de Reagan. A expressão maior do conservadorismo britânico é a ex-primeira-ministra Margaret Thatcher, que em seus 11 anos no cargo, de 1979 a 1990, promoveu um programa de privatizações das empresas estatais e combateu de forma radical os movimentos sindicais trabalhistas. Seu sucessor, John Major, também do Partido Conservador, deu continuidade ao processo em ritmo mais lento. Uma das conseqüências dessa política do governo conservador foi a queda do poder político dos sindicatos e de sua influência na sociedade civil.
Liberais de ontem e de hoje. A expansão do poder e da responsabilidade do governo que os liberais de hoje defendem é oposta à contração do poder e das responsabilidades do governo defendidos pelos liberais de ontem. O conteúdo do liberalismo varia de acordo com a mudança das condições nacionais e das contingências históricas mas sua inspiração é sempre a mesma: a hostilidade à concentração de poder que ameaça a liberdade do indivíduo e o impede de realizar suas potencialidades; a disposição de reexaminar e reconstruir as instituições sociais à medida que surgem novas necessidades.
Essa disposição, temperada pela aversão à mudança súbita e cataclísmica, é o que diferencia o liberal do radical, que ignora seus riscos; seu entusiasmo no incentivo ao progresso e às transformações úteis distingue o liberal do conservador. Se o conteúdo varia, essas características constituem a forma distintiva e permanente do liberalismo novo ou velho.
Neoliberalismo no Brasil. Na versão brasileira, o neoliberalismo defende a limitação da participação do estado na atividade econômica e identifica-se com o ideal de "estado menor" e mais eficiente.
Opõe-se ao corporativismo que domina as relações entre o estado e os poderosos grupos de interesse da sociedade civil que buscam influenciar as decisões de governo para manter privilégios, principalmente os que se formaram a partir das bases do trabalhismo lançadas por Getúlio Vargas no período de 1930 a 1945 e do estatismo, iniciado também por Vargas e acelerado a partir de seu segundo período no governo, de 1950 a 1954, que beneficiou categorias especiais de trabalhadores e especialmente de empresários.
Para o neoliberalismo brasileiro, já se esgotou o modelo de estado empresário, que supriu, num momento essencial do desenvolvimento econômico, o papel do capital privado, que não se dispôs a investir em setores essenciais. Durante a ditadura militar de 1964 a 1985, a presença do estado na economia se ampliou até responder por aproximadamente um terço dos investimentos nos setores produtivos e mais da metade do capital bancário, com atuação em áreas as mais diversificadas da produção industrial e de serviços.
O neoliberalismo brasileiro aproxima-se portanto do neoliberalismo americano e britânico e não do conservadorismo representados por Reagan e Thatcher e se identifica muito mais com o liberal-socialismo, que tenta uma síntese entre socialismo e liberalismo.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Termos históricos: Coronelismo

Símbolo de autoritarismo e impunidade, as práticas do coronelismo, do caudilhismo e do caciquismo aviltaram, do império às últimas décadas do século XX, a cena política brasileira.
Coronelismo é o termo criado para designar certos hábitos políticos e sociais próprios do meio rural brasileiro, onde os grandes proprietários rurais, ditos coronéis, exerciam absoluto domínio sobre as pessoas que viviam em suas terras ou delas dependiam para sobreviver. O fenômeno tem raízes profundas na tradição patriarcal brasileira e no arcaísmo da estrutura agrária do país.
História. O título de coronel remonta à criação da Guarda Nacional, em 1831, pelo governo imperial, em substituição às milícias e ordenanças, com a finalidade de defender a constituição e a integridade do império. Como seus quadros eram nomeados pelo governo central ou pelos presidentes de província, o tráfico de influências e a corrupção política logo dominaram o sistema. A patente de coronel tornou-se equivalente a um título nobiliárquico, concedida de preferência aos senhores de terras, que assim adquiriam autoridade para impor a ordem sobre o povo e os escravos. Sem vigilância direta, perdido nas distâncias e defendido por um partido nos excessos que cometesse, o coronel personificou a invasão particular da autoridade pública, favorecido pelo sistema que o nomeava e sustentava.
Ao lado do coronel detentor de patente surgiu a figura do coronel sem cargo, qualificado pelo prestígio e pela capacidade de mobilização eleitoral. Os dependentes submetiam-se ao senhor da terra pela persuasão e pela proteção que caracterizavam a relação de "compadrio"; em caso de resistência, eram expulsos da fazenda, perseguidos e até assassinados impunemente. Essa foi, durante muitas décadas, a configuração das relações políticas brasileiras nas áreas rurais. Nos pequenos núcleos urbanos surgiram lideranças mais modestas, personificadas por comerciantes, médicos, padres ou advogados, todos presos à concepção comum do voto cativo.
A república, ao deslocar o comando político para a unidade federada e transformar o governo central -- depois de Campos Sales até a revolução de 1930 -- numa coligação de poderes estaduais, favoreceu o pleno florescimento do coronelismo. Os chefes estaduais tornaram-se coronéis de coronéis, pois os chefes de municípios, em troca dos votos de seus próprios currais eleitorais, recebiam apoio para gerir os negócios locais e autonomia para nomear protegidos.
Opor-se ao governo do estado, exceto no caso de municípios mais ricos, implicava sérias privações para o chefe municipal e seus seguidores. A vitória eleitoral do coronel de oposição foi sempre fato raro, pois a máquina do governo na política, no fisco, na justiça e na administração trabalhava contra ele. Se eleito, precisava de recursos que dificilmente viriam sem concessões de sua parte. Além disso, o governo podia seduzir os chefes da oposição, sempre que se mostrassem mais eficazes que seus correligionários na arregimentação de votos.

Declínio do coronelismo. O crescimento da população rural e das pequenas cidades, as migrações, a abertura de estradas e a penetração dos meios de comunicação de massa nos pontos mais remotos do território nacional tornaram o eleitor menos submisso e mais exigente para conceder seu voto. Surgiram novos líderes, que podiam dirigir-se diretamente ao povo, cada vez mais concentrado nas cidades. A decadência do coronelismo, forma de organização político-social ajustada à tradicional sociedade rural brasileira, foi-se processando em compasso com a transformação da sociedade. O êxodo rural e o desmesurado crescimento das cidades pelos aglomerados urbanos marginais esvaziou o poder eleitoral dos coronéis. A permanência de um regime de propriedade rural arcaico, no entanto, com seu subproduto de pobreza e dependência, favorece a manutenção das práticas políticas autoritárias e da instituição do "voto de cabresto".

Caudilhismo. Formas análogas de exercício de poder pessoal e discricionário surgiram e se mantiveram ao lado do coronelismo, ou em sua substituição. Uma delas foi o caudilhismo, que se define pelo agrupamento de uma sociedade, ou de parte representativa desta, em torno da figura de um chefe. Enquanto o coronel se impunha pela força e pelo medo, o caudilho impunha-se principalmente pelo carisma e por um apelo de tipo salvacionista. Embora se manifestasse na esfera política, podia envolver relações de tipo militar, ou paramilitar, para impor o nome do caudilho pela força. Tal como o coronelismo, é um fenômeno típico do meio rural, ou dos pequenos agrupamentos urbanos do interior, que vigorou até meados do século XX não apenas no Brasil, mas em toda a América Latina.

Caciquismo. Fenômeno semelhante ao coronelismo e ao caudilhismo, o caciquismo difere apenas na forma menos agressiva. O cacique era o chefe político local, às vezes deputado estadual, federal ou senador, com domínio sobre amplos currais eleitorais. Seu traço principal era a política clientelista, de concessão de favores e cargos públicos, também  chamada "política de mão-no-ombro". O cacique desfrutava de domínio sobre seu eleitorado e também sobre o processo eleitoral local, o que multiplicava seu poder e o tornava temido.
Embora o coronelismo, o caudilhismo e o caciquismo -- sobretudo este último fenômeno -- tenham sobrevivido até o final do século XX em áreas mais afastadas dos grandes centros urbanos, já não apresentavam a mesma força e poder, corroídos por novas variáveis que se impuseram à realidade eleitoral brasileira. Uma delas foi a recomposição demográfica da sociedade, com crescente diminuição da população rural e aumento dos contingentes urbanos. Tal mudança se acompanhou de uma modificação na visão de mundo do trabalhador rural migrante que, embora vivendo miseravelmente na cidade grande, passou a dispor de certa autonomia e ficou livre da pressão direta de seus antigos patrões.
Outra variável importante foi o alastramento dos meios de comunicação, principalmente a televisão, por sua natureza hegemônica e seu poder de penetração e convencimento, reforçado pela utilização da imagem em cores e a formação de redes nacionais. A disseminação de formas urbanas de comportamento afetou profundamente as massas populares interioranas, destruiu mitos e tradições e, de algum modo, reduziu a ingenuidade e a submissão que caracterizavam a atitude do homem do campo, habituado por séculos de dominação a obedecer servilmente aos seus senhores.

domingo, 6 de junho de 2010

Apartheid



Auge e declínio do regime do Apartheid sul-africano



O apartheid foi estabelecido oficialmente na África do Sul em 1948 pelo Nationalist Party (Partido dos Nacionalistas) que ascendeu ao poder e bloqueou a política integracionista que vinha sendo praticada pelo governo central.

O Nationalist Party representava os interesses das elites brancas, especificamente da minoria boere. Após 1948, o sistema de segregação racial atingiu o auge. Foram abolidos definitivamente alguns direitos políticos e sociais que ainda existiam em algumas províncias sul-africanas.

As diferenças raciais foram juridicamente codificadas de modo a classificar a população de acordo com o grupo social a que pertenciam. A segregação assumiu enorme extensão permeando todos os espaços e relações sociais. Os casamentos entre brancos e negros foram proibidos.

Os negros não podiam ocupar o mesmo transporte coletivo usado pelos brancos, não podiam residir no mesmo bairro e nem realizar o mesmo trabalho, entre outras restrições. Os brancos passaram a controlar cerca de 87% do território do país, o que sobrava se compunha de territórios independentes, mas paupérrimos, deixados aos grupos sociais não-brancos.


Declínio do apartheid

O apartheid é o único caso histórico de um sistema onde a segregação racial assumiu uma dimensão institucional. Essa situação permite definir o governo sul-africano como uma ditadura da raça branca.

Na década de 1970, o governo da África do Sul tentou em vão encontrar fórmulas que pudessem assegurar certa legitimidade internacional. Porém, tanto a ONU (Organização das Nações Unidas) como a Organização da Unidade Africana, votaram inúmeras resoluções condenando o regime.

No transcurso dos anos 70, a África do Sul presenciou inúmeras e violentas revoltas sociais promovidas pela maioria negra, mas duramente reprimidas pela elite branca. Sob o governo de linha dura, liderado por Peter. W. Botha (1985-1988), tentou-se eliminar os opositores brancos ao governo e as revoltas raciais foram duramente reprimidas. 

Porém, as revoltas sociais se intensificaram bem como as pressões internacionais. Em 1989, Frederic. W. de Klerk, assumiu a presidência. Em 1990, o novo presidente conduz o regime sul-africano a uma mudança que põe fim ao apartheid. Neste mesmo ano, o líder negro Nelson Mandela, que desde 1964 cumpria pena de prisão perpétua, é posto em liberdade. Nas primeiras eleições livres, ocorridas em 1993, Mandela é eleito presidente da África do Sul e governa de 1994 a 1999.




Origem histórica da segregação racial na África do Sul

por Renato Cancian

O termo apartheid significa "separação" ou "identidade separada". Serviu para designar o regime político da África do Sulque, durante décadas, impôs a dominação da minoria branca (ou aristocracia branca) sobre grupos pertencentes a outras etnias, compostos em sua maioria por negros.

apartheid não deve ser interpretado como simples "racismo", pois ele foi um sistema constitucional de segregação racial que abrangeu as esferas social, econômica e política da nação sul-africana estabelecendo critérios para diferenciar os grupos.

A origem histórica do apartheid é bem antiga e remonta ao período da colonização da África do Sul. Os primeiros colonizadores bôeres (também denominados de afrikaner) compunham-se de grupos sociais europeus que vieram da Holanda, França e Alemanha e se estabeleceram no país nos séculos 17 e 18.

Apartheid na África

Ideologia nacionalista

Esses colonizadores dizimaram as populações autóctones (grupos tribais indígenas) e tomaram suas terras. Os líderes afrikaners manipularam e converteram um preceito religioso cristão, que a princípio estabelecia a segregação como uma forma de defender e preservar as populações tribais da influência dos brancos, em uma ideologia nacionalista que pregava a desigualdade e separação racial.

Os afrikaners se consideravam a verdadeira e autêntica nação (ou volk, que em alemão significa povo). A cor e as características raciais determinaram o domínio da população branca sobre os demais grupos sociais e a imposição de uma estrutura de classe baseada no trabalho escravo.

Política racial

Nas regiões dominadas por eles estabeleceu-se uma política racial que diferenciou os europeus (população branca) dos africanos (que incluía todos os nativos não-brancos, também conhecidos por bantus). Até mesmo aqueles grupos sociais compostos por imigrantes asiáticos, em particular indianos, sofreram com a política de discriminação racial.

Seria engano supor que a expansão do domínio dos afrikaners sobre a população não-branca da África do Sul foi um processo livre de conflitos. Pelo contrário, houve muitas guerras com as populações tribais que ofereceram resistência aos brancos, entre elas as tribos xhosa, zulu e shoto.

No início do século 20, a África do Sul atravessou um intenso processo de modernização que intensificou os conflitos entre brancos e não-brancos. Não obstante, a minoria branca soube explorar os conflitos intertribais que afloravam entre os diferentes grupos étnicos e isso de certo modo facilitou a avanço e domínio dos afrikaners.





As principais leis do apartheid foram as seguintes:

Lei de Proibição de Casamentos Mistos (1949): 
Tornou crime um casamento entre uma pessoa branca e uma não-branca.

Emenda à Lei de Imoralidade (1950): 
Tornou ato criminoso uma pessoa branca ter relações sexuais com uma pessoa de raça diferente.


A Lei de Registro Populacional (1950): 
Requeria que todos os cidadãos se registrassem como negros, brancos ou mestiços.


'Com passes, somos escravos': manifestação de mulheres contra a obrigatoriedade do porte das infames cadernetas de registro



A Lei de Supressão ao Comunismo (1950): 
Bania qualquer partido de oposição ao governo que o governo decidisse catalogar como "comunista".

Lei de Áreas de Agrupamento (Group Areas Act de 27 de Abril de 1950): 
Barrou o acesso de pessoas de algumas raças de várias áreas urbanas



Lei da Auto-determinação dos Bantu (Bantu Self-Government Act, de 1951): 
Estabelecia as chamadas “Homelands” (conhecidas para o resto do mundo como “Bantustões”) para dez diferentes tribos “africanas” (de negros), onde eles podiam residir e ter propriedades.

Lei de Reserva de Benefícios Sociais Separados (1953): 
Proibiu pessoas de diferentes raças de usar as mesmas instalações públicas como bebedouros, banheiros e assim por diante.



Lei de Educação Bantu (1953): 
Cria medidas para reduzir o nível de educação recebida pela população negra – seu objetivo real, de acordo com seu idealizador, Hendrik Verwoerd, é impedir que os negros aspirem a posições às quais não podem ter na sociedade sul-africana



Lei de Minas e Trabalho (1956): 
Formalizava a discriminação racial no emprego.



Lei de Promoção do Auto-Governo Negro (1958): 
Criou "pátrias" nominalmente independentes para pessoas negras. Na prática, o governo sul-africano tinha uma influência forte sobre um bantustão.

Lei de Cidadania da Pátria Negra (1971): 
Mudou o estatuto dos nativos das 'pátrias' de forma que eles não fossem mais considerados cidadãos da África do Sul, não tendo assim mais nenhum direito associado a essa cidadania.



Em 21 de Março de 1960, 5.000 pessoas negras congregadas em Sharpeville demonstraram contra o requerimento para negros portarem as identidades (sob as regras estipuladas na Lei da Licença). A polícia abriu fogo nos protestantes, matando 69 e ferindo 180. Todas as vítimas eram negras. A maioria delas foi baleada nas costas. O Coronel J. Pienaar, o oficial da polícia encarregado no dia, foi visto dizendo que: "Hordas de nativos cercaram a delegacia. Meu carro foi acertado com uma pedra. Se fazem essas coisas, eles devem aprender a lição do modo difícil."
Sem culpa e sem defesa: 'A maioria dos corpos estava esticada na estrada que rasgava o campo em que estávamos', diz Tyler
Esse evento ficou conhecido como o Massacre de Sharpeville. Como conseqüência, o governo baniu o Congresso Nacional Africano (CNA) e o Congresso Panafricanista (PAC).

Veja também:

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